Vida própria


O recesso do Judiciário vai chegando ao fim e, com ele, o temor de que a operação Lava Jato sofresse algum tipo de descontinuidade após a morte súbita do seu relator, ministro Teori Zavascki.

Duas decisões pessoais – do presidente Michel Temer, e da presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmem Lúcia – foram determinantes para espantar o pessimismo com o futuro da operação mais ampla contra corrupção em andamento no planeta hoje.

O presidente Temer contrariou posições internas pela indicação imediata de novo ministro para a vaga aberta por Teori no STF, anunciando que só o fará após ser conhecido o relator que substituirá Teori na Lava Jato.

A ministra Carmem Lúcia, por sua vez, determinou a retomada dos depoimentos finais dos 77 colaboradores da Odebrecht , o que não precisa necessariamente aguardar pelo novo relator.

Com o reinício dos trabalhos da equipe que trabalhava sob a orientação de Teori, é até possível que a própria Carmem Lúcia venha a fazer a homologação, caso esses depoimentos sejam concluídos ainda no período do recesso, – ou seja, até a próxima terça-feira.

O que importa mais aqui é que a tragédia aérea não encontrou espaço para se transformar em um enredo protelatório , ou mesmo paralisante. Não haveria tolerância com qualquer das duas hipóteses.

A rigor, a ameaça à investigação tinha pouca consistência. A Lava Jato ganhou vida própria, atravessou fronteiras e produziu anticorpos suficientes para autoimunizar-se.

Mesmo assim, foi importante a manifestação geral pela sua preservação, que serviu para reafirmar a vigilância da sociedade e sua intransigência com a operação.

Mesmo parte de outra operação, a que investiga os descalabros da gestão de Sérgio Cabral no Rio, a prisão do empresário Eike Batista (foto), que deverá ocorrer a qualquer momento, ajuda a firmar a Lava Jato, pois se encontrará com ela a partir do BNDES, onde Eike foi um dos eleitos pelas gestões de Lula e Dilma Rousseff.

Condenado a seguir o mesmo roteiro dos que o antecederam nas investigações, as revelações que o empresário vier a fazer ajudarão a dar mais visibilidade ainda ao que se passou no banco de fomento durante o período em que foi presidido por Luciano Coutinho, com Guido Mantega na Fazenda e Fernando Pimentel no ministério do Desenvolvimento.

Como se sabe, o BNDES foi o principal fomentador de empresas eleitas pela gestão do PT como aquelas destinadas a liderar projetos nacionais, mas que na prática se tornaram dutos de dinheiro para fins políticos e pessoais de partidos e pessoas físicas, agora enredadas nas investigações. Só o grupo Friboi/JBS, entre 2002 e 2013, teve R$ 12,8 bi do banco. Outro dado é que de tudo o que obteve do BNDES, o grupo doou a partidos e políticos, 18%.

A Lava Jato começa seu processo de estadualização que vai gerar ramificações, dar nomes a outras operações e descentralizar as investigações.

O País terá uma dimensão mais realista do universo da corrupção quando as investigações chegarem aos municípios, cujas administrações sempre estiveram fora do raio de visão da sociedade, o que explica a pouca preocupação de políticos regionais com a opinião pública.

Essa zona de conforto acabou. Já se somam prisões de prefeitos e redes de corrupção começam a ser desvendadas em municípios alcançados pelas investigações da Policia Federal.

Não é sem causa a precariedade – e, em alguns casos, ausência – de saneamento básico no país, assim como a deficiência de infraestrutura, sucateamento da rede pública de ensino e de saúde.

A corrupção municipal é o próximo ciclo de escândalos, o que faz da Lava Jato mais que uma operação – um divisor de águas na gestão pública.

Foi esse, inclusive, o recado que o Procurador Geral, Rodrigo Janot, levou aos investidores em Davos.

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