Um teatro de Pirandello

//Um teatro de Pirandello

Não são os atos, fatos, processos, nem os protagonistas, mas o ritmo da apresentação que impressiona. O que parecia cômico-trágico na política virou o tragicômico da política. Basta um novo ator se enfiar na peça que o teatro vem a baixo.

Começou com uma percepção do contrário, coisa meio engraçada.  Começou como cômico – que exige de quem ri superioridade, como se somente ele compreendesse o erro.  Quando você acha que só você percebeu é porque você acha que o erro não o envolve, não lhe diz respeito. Nesse caso só ri quem acha que está certo.

Eis que uma sequência de acontecimentos muda o sentido habitual dos fatos que fazem rir, chorar de rir. E aquilo que parecia uma situação absurda, localizada, que não ia mais dar em nada, muda quando entra espalhafatosamente no palco um novo personagem.

E o que era uma percepção do contrário pode virar um sentimento do contra. Os novos personagens informam que não adianta distanciamento ou superioridade. Todos estão envolvidos. O cômico vira riso amarelo, que vira sorriso de artista, que vira cinismo geral.

Tem sido assim por aqui. O guardião da virtude costuma não ser virtuoso. E, aí, como ninguém sabe, ou aceita mais o seu papel, o telespectador sente que pode mais uma vez ser enganado.

A retórica da lealdade corporativa é simples e binária: somos o que eles não são. Na política é a mais comum manifestação de talento para a sobrevivência. No mundo das carreiras de estado tornou-se o sonho de muitos, indiferentes a pesos e medidas compreensíveis.

Quando muitos artistas do período anterior perceberam que as consequências penais estavam se antecipando às consequências políticas decidiram mudar o enredo, no meio do espetáculo. Os atores preteridos, que se sentiam donos do teatro, logo começaram a perceber que o risco maior é a liberalização da economia ter um efeito muito forte sobre o relaxamento da cidadania ultra regulada. E o curto-circuito se instalou.

O teatro é o mesmo, todos os recursos cênicos são usados para falar mal do novo enredo, mas ninguém saiu do palco.

Porque o personagem novo que entrou na sala começou a dizer que a peça só é boa com dez atos, como nas Tábuas da Lei. Moisés era mais modesto, alguém do seu meio sussurrou. O bezerro de ouro era mais magro, profetizou. Um frequentador assíduo dos estabelecimentos correcionais não aguentou: ruim é não poder ser criticado. E continuar ator quando esquece o texto que todos decoraram!

E naquela companhia que é a mesma há quase 200 anos, e tem os mesmos patrocinadores de sempre – um expectador historicamente desatento – começou um diálogo estranho.

– Quem é você?

– Eu sou um promotor da justiça, cumpro leis –

E você?

– Eu, não. Eu sou político, faço leis.

– O que você quer de mim?

– Uma prova ilícita obtida de maneira idônea.

– Minha não! Dos outros.

– Vamos ver, o que tenho que fazer?

– Me fazer idôneo

– E eu, faço o quê?

– Faz meus penduricalhos ilícitos ficarem idôneos.

Alguém, em tom de comando, gritou do meio da plateia: Por que vocês dois não acabam com as ilicitudes e todo mundo vira idôneo e vamos para casa cuidar da vida?

Na capital, é instintivo, todo mundo teatraliza. O procurador da injustiça logo foi falando: não existe mais o frescor do consenso, não aceito a inveja sobre minhas certezas. O político se dividiu em dois, direita e esquerda, e ensaiou o canto da vítima.

E a alteração total do significado daquele talentoso diálogo foi se transformando na mais pura encrenca. Parecia apontar para um ponto distante, mas não inatingível: a política e a justiça tudo conquistarem – isto é, serem abolidos.

Paulo Delgado


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