Trump e o triunfo dos tolos

//Trump e o triunfo dos tolos

E a América, com juventude, desobedeceu e votou errado. Wyoming, o mais caipira estado americano, derrotou a pretenciosa New York City. Depois de ver dois políticos manobrando ali na sua frente, como se ninguém estivesse presente, o eleitor engolfou o país na democracia. Todos os que perderam com a globalização estão assustados, e felizes, por dizerem ao mundo: parem com suas verdades que mudaram minha alma e enfiaram a pátria num container.

Muitos espectros rondam o mundo atual: o contágio da diferença estimulada, as leis da imitação intimidadora, a controvérsia imposta sutilmente, os fenômenos da semelhança sufocados, o esgarçamento das concepções coletivas, a perda de vigor da homogeneidade, o fim do livre arbítrio, a versão mais forte que o fato, a fome moral de levar a todos a passar pelo mesmo caminho.  O touro venceu o toureiro. E o bruto levou a presidência americana, no que foi rapidamente reconhecido por Obama, o maior perdedor, a oligarquia democrata dos Clinton, e seus êxtases indevidos, e os três monarcas da família Bush, o presidente 41, pai do 43, e o filho-irmão que não conseguiu apoio para a vaga 45.

Como a pesquisa tradicional, essa arqueologia do outro que recalca o presente e soterra o passado, anda de mãos dadas com interesses políticos-eleitorais – e nunca foi uma teoria da intencionalidade – com suas perguntas velhas, tão antigas, vai acertar o que anda pensando o povo da elite de seu tempo?

Há um mantra mundial, um rumor no inconsciente da massa que passa longe do comentário politicamente correto, e das catedrais onde se produzem as orações dos progressistas: os políticos “do bem” andam um fracasso. Usam mal suas qualidades, se deixam dominar por seus defeitos e têm o péssimo hábito de esperar mais dos outros do que exigem de si mesmos.  Não são mais os emissores do sentido de referência do mundo. A singular “sensibilidade” e fúria dos excêntricos para se aproximar da multidão do homem comum desabilitou a esquerda – cada vez mais de olhar evasivo e autopiedade – para entender qualquer pensamento rival.  O desafio atual é deter o que os governos populistas andam fazendo para desmoralizar os princípios contidos na Declaração dos Direitos Humanos e impor um rumo errado para a Globalização Econômica e Comercial. Talvez, se os ativistas políticos, pudessem se interessar, sinceramente, pela microssociologia do abandonado, mais do que por sua cooptação eleitoral (uma espécie de morte civil do cidadão), parariam de chamar de conservador quem está mapeando melhor a controvérsia na política.

São tantos os emissores de identidade e boatos na vida atual que é possível dizer que não tem nada de ideológico no resultado da eleição americana. Como não teve nas eleições municipais brasileiras, nos arranjos espanhóis de centro, no fracasso do governo socialista francês, na grosseria de Putin, na força de Xi Jinping.  A ideologia, sem persuasão vinda de lideranças morais que a encarnem, não produz hegemonia.  Hoje é uma ficção, não tem existência ideal, politizada. Tomada pelos partidos políticos como forma cínica de manipular a vida do povo, a ideologia é vivida pelas pessoas comuns como coisa material, sem ter nada a ver com a ilusão da política, e a vida de rua das ideias do mundo. Não há nada de novo no resultado eleitoral. Ele é uma captura ultrarrápida de uma mudança lenta e perceptível, embora inaudível para quem faz parte do processo oficial. Quem não imagina que tem que respeitar os arranjos que um líder faz para chegar à presidência continua sendo o eleitor !

Para o homem comum, a família, sua rede de relações, suas concepções de lealdade e afeto, sua religiosidade, nunca saíram do círculo dos seus favoritos. Ainda que seus filhos possam estudar, mudar, trabalhar, viajar pelo mundo como navios portugueses da época das grandes navegações. A imensidão dos sonhos atuais, o esplendor do consumo, as mercadorias, o Twitter, Wattsapp, Instagram, impulsionaram o relativismo moral para milhares de pessoas, mas não mudam a rotina da multidão que ainda vive, como um padecimento do amor, o sofrimento da vida. A política, como instituição total, é música folclórica para embalar a política dos políticos.

Quem teoriza, temerosamente, sobre um resultado eleitoral, está, tendenciosamente, forçando à mão para que a tendência anterior, derrotada, não seja responsabilizada pelos seus erros.  É como querer acabar com o canibal comendo o último deles. A política está perdendo amigos por não estar dizendo tudo as pessoas. Virou uma tecnologia de manipulação inteiramente carente de autocrítica.  O mundo fechado das capitais, dos partidos e seus segredos. O voto livre deságua sobre as cabeças a transitoriedade do poder, sua evanescência, as mais delicadas ideias do que é democracia, mas, didaticamente, reafirma o peso do respeito institucional, a única coisa que deve permanecer.

Os ânimos tremeram quando o improvável desconcertante foi apurado. A exemplo do que ocorreu quando o Ocupe Wall Street apontou o dedo para a especulação criminosa e o Vem Prá Rua disse que a política não funciona para o povo no Brasil. Ondas que arrebentam, é claro.

A eleição de Obama era altamente improvável. A de Trump também. Mas vem num turbilhão distinto.  Todavia, ela não é um movimento reacionário, como eleger Obama foi revolucionário.  O internacionalismo continua uma utopia. A paz também. Igualdade, bondade, a primazia das virtudes, da mesma forma. Belas e feias, poderosas e frágeis. O mundo tem que evoluir muito até lá. Se a presidência dos EUA foi disputada na baixa é a decepção com os “melhores” que não tem deixado os países negociarem seu futuro na alta. E boa parte do povo, cansado, assustado, abandonado, aposta nisso. Convergência só funciona quando pessoas livres sentem a possibilidade para as coisas também serem divergência.

A agenda negativa interna tomará um bom tempo da Casa Branca. Trump terá muito poder a partir de 20 de janeiro de 2017.  Senado e Câmara terão maioria republicana e ele desempatará a Suprema Corte – a eterna tensão entre a lealdade e a lei que torna sempre relativa a independência dos juízes – entre liberais e conservadores com sua indicação. O 45º presidente americano ganhou repetindo até o fim que o sistema, corruptamente, ceifaria sua vitória. Não só ganhou, como ganhou com todas as cartas na mão, ainda ouvindo de um exemplar Obama que ele chegou até lá e é digno “da presunção de que nossos compatriotas agirão com boa fé”.

O que será do capitalismo, do solidarismo, das cadeias globais, das instituições relevantes, dos valores e das virtudes que sustentam a política da humanidade?  Podem até estar em perigo se os bons, de qualquer concepção política, continuarem a transmitir descrédito com suas atitudes. Perigo maior, no entanto, é se continuar essa cumplicidade entre o pensamento progressista e o erro. Para esses as dificuldades do mundo não despertarão a devida consideração e estudo pois, acham, erroneamente, que o futuro é imutável.

Enfim, para quem continua se achando melhor que os outros, ou não move uma palha para entender as tapeações e distorções da política, pelo menos faça como St. Mateus e ouça, também, o que seu líder disse no alto daquela montanha: aquele que chamar de tolo ao seu irmão, ou o disser louco, arderá entre os danados.

Paulo Delgado


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