Trump e a crise existencial da mídia

//Trump e a crise existencial da mídia

Entre tantas controvérsias decorrentes da eleição de Donald Trump, há pelo menos um sólido consenso: a mídia – não somente a convencional, mas também a alternativa, das redes sociais – foi a grande derrotada. E por uma razão simples: sobrepôs a opinião – pior: a propaganda – aos fatos.

Em jornalismo, trata-se de pecado mortal.

A primeira lição que se aprende na carreira – ou pelo menos se aprendia – é que, antes de tudo, vem o fato, em sua crueza e objetividade; depois, a opinião, que pode ser a mais parcial possível, até mesmo panfletária, desde que não oculte o fato.

Quando isso ocorre, tem-se a propaganda, que é outra mercadoria – e que, em regra, afronta a informação.

A cobertura da campanha eleitoral americana foi na contramão disso tudo. E não apenas lá; aqui e em toda parte. Prevaleceu o que Walter Lippman dizia nos anos 70: “Notícias e verdade não são a mesma coisa”.

Mas o que, naquela época, foi dito como blague, para enfatizar deslizes que, embora recorrentes, não eram uníssonos, hoje consumou-se como tal. E o resultado foi a “surpresa”.

John King, da CNN, uma das redes mais engajadas na campanha anti-Trump (o que seria legítimo, se não distorcesse os dados da campanha), fez, no ar, uma autocrítica: “A conversação que vínhamos mantendo estava dissociada da realidade: Trump venceu”.

Jim Rutenberg, do The New York Times, um dia após a “surpresa”, constatava, perplexo:

“Toda a deslumbrante tecnologia, os sistemas big data e a sofisticada modelagem estatística que as redações noticiosas dos EUA empregam para cobrir a política presidencial – uma empreitada fundamentalmente humana – não conseguiram salvar o jornalismo norte-americano de uma vez mais não conseguir acompanhar a história e o restante do país”.

Não se trata, obviamente, de deficiência tecnológica. A mídia surpreendeu-se porque acabou acreditando em sua própria mistificação, que reduziu os dois concorrentes a um perfil do mais deslavado (e primário) maniqueísmo: o bem e o mal, sem entretons.

Hillary era o bem; Trump, o mal. Pouco se difundiu, na mídia de massa, fora do círculo dos especialistas e iniciados, a respeito do verdadeiro perfil de cada qual. Nenhum dos dois é exatamente o que deles se disse no decorrer da campanha.

Trump,  apresentado como um fanfarrão ignorante – e para alguns a personificação do Anticristo -, pode ter muitos defeitos (e os tem), mas é preciso que se saiba, por exemplo, que, além de empresário de sucesso, é autor de 20 livros, escritos de 30 anos para cá, quando nem sequer cogitava de disputar nada em política.

O que dizem esses livros? Pode ser que agora alguém se debruce sobre eles, para confrontá-los com suas propostas de campanha. Afinal, vai governar o país.

Hillary também não foi devidamente apresentada: ou era a estadista do bem, progressista, conforme o conjunto da mídia, ou, inversamente, um ente satânico, conforme os adversários de campanha, cujos excessos davam pretexto à censura midiática.

As denúncias sobre sua atuação no governo Obama diluíam-se como calúnias do concorrente radical. E sabe-se que não é só isso.

Os institutos de pesquisa, braço auxiliar da mídia nas campanhas, também fracassaram, ao ponto de alguns serem vistos como meros balcões de negócios. Pelo visto, foram.

Na véspera da eleição, o The New York Times afirmava que Hillary já estava eleita, segundo “95% dos institutos de pesquisa”. A mídia daqui (e do mundo todo) embarcou nesse coro.

O bloqueio ao contraditório, uma forma oblíqua de censura, não é um fenômeno norte-americano. Aqui, reina também. Quem se opuser ao politicamente correto – um código de valores que postula o status de os Dez Mandamentos da Nova Era -, ganha os piores adjetivos: fascista, homofóbico, racista, misógino e por aí vai.

Estabelece-se, assim, a pior forma de censura: a moral. Isso explica o silêncio da maioria, que agora começa a se romper diante das urnas. Os fatos se impuseram sobre a versão, à revelia de quem até há pouco detinha o monopólio da notícia.

Foi o que também se viu nas eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro, em que o vitorioso, o senador evangélico Marcelo Crivella, foi apresentado como fundamentalista, não obstante ter sido ministro do PT e aliado por anos dos que o insultavam naquele momento.

A censura moral do politicamente correto é mais profunda e letal que a do tempo dos militares. Esta transformava o censurado em herói; a de hoje o transforma em um ser imoral, repulsivo. É a patrulha do pensamento. Quem a afronta cai em desgraça.

A eleição de Trump afrontou (e triunfou sobre) esse cordão de isolamento. Mergulhou a mídia em crise existencial.

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