Tempo de menos

//Tempo de menos

Embora não repetissem o público daquelas de junho de 2013 e nem as que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff, as manifestações de ontem cumpriram seu objetivo de marcar posição contra boicotes ao combate à corrupção.

Para alívio passageiro do governo, a população que foi às ruas concentrou seu foco na corrupção e condenou as posições recentes do Congresso, personalizando-as na figura do presidente do Senado, Renan Calheiros.

Mas é bom não perder de vista que o pano de fundo continua sendo o de 2013 – impostos sem contrapartida – e a percepção de que o governo provisório tem imensa dificuldade de enfrentar o mau comportamento de sua base de sustentação, por recear perdê-la.

Os procuradores que mobilizaram as ruas desta vez, reagiram em defesa à continuidade das investigações da Lava Jato que julgam ameaçada pelo projeto de abuso de autoridade, cujo açodamento traiu o seu caráter sabotador.

Reagir, porém, à aprovação de medidas gestadas para restringir o trabalho investigativo não se confunde com exigir mais poderes do que os utilizados até aqui com êxito, do que é prova a própria Lava Jato.

De qualquer forma, parece certo que nem as medidas propostas pelo Ministério Público serão aprovadas , ou modificadas, a toque de caixa, e nem há mais clima para tramitação do pacote contra abuso de autoridade.

Ambas caíram no buraco negro do recesso parlamentar e, ainda que este seja suspenso por eventual convocação extraordinária, seguirão trâmite mais lento nas comissões respectivas, cumprindo o ritmo de discussão apropriado.

É uma oportunidade para que o governo tente retomar a pauta econômica, excluída do debate pela crise aberta com o ativismo judicial e pelo instinto de sobrevivência dos parlamentares ameaçados pela colaboração premiada da Odebrecht.

O problema do governo é conseguir se equilibrar entre a conveniência de não contrariar sua base de sustentação e, ao mesmo tempo, obter desta o apoio indispensável – e rápido – às medidas de correção da economia.

O presidente Michel Temer tem demonstrado extrema dificuldade em estabelecer com sua base um pacto de não concordância com iniciativas ou reações que permitam associá-lo aos que tentam cuidar da própria pele em detrimento dos interesses do País.

Ao hesitar nesse confronto, mesmo quando ele se mostra pontual, o governo amplia a crise política e favorece a exclusão da economia da pauta congressual. É preciso encontrar um ponto de corte que priorize a questão econômica.

A estagnação econômica e as dificuldades políticas para revertê-la são o combustível da insatisfação que acirra ânimos, ofusca discernimentos e ameaça a carta de crédito do governo provisório de Michel Temer.

Ao reagir às crises de natureza ética, as quais deveria se antecipar, o governo corre riscos cada vez maiores. E, entre eles, um sintetiza todos – o de consolidar a percepção de ser insuficiente para se contrapor a iniciativas gestadas no Congresso, que agridem o senso comum.

Depois do episódio que detonou o ex-ministro Geddel Vieira Lima e do confronto de sua base com o Judiciário, o presidente Temer se encontra nesse ponto – do qual avança ou avança, sem outra escolha.

Já se verifica o que ele próprio, em definição reducionista, classificou de “movimentação” interna por mudanças na área econômica, o que se avizinha um desastre anunciado. Porque o problema, é óbvio, não é Meirelles.

A substituição do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, pedida abertamente por líderes de PSDB e PMDB, situaria o governo no mesmo cenário de impasse de sua antecessora, Dilma Rousseff, quando demitiu Joaquim Levy.

Representaria abrir mão do ajuste fiscal em nome da estabilidade política que faltava à antecessora e que, no presente, depende justamente de produzir resultados na economia.

Nesse momento, o governo padece de ritmo no Congresso, o que vendeu como trunfo, mas que a crise política insiste em mostrar como problema.

O tempo é curto e seu desperdício,  uma bomba-relógio.


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