Sob o império da versão

//Sob o império da versão

Em política, vale a versão, não o fato. Essa sentença, que soa como blague, tem se mostrado real ao longo do tempo, sobretudo hoje. Mas remonta a algumas décadas da política brasileira.

Quem a proferiu, originalmente, foi o falecido Gustavo Capanema, mineiro, ex-ministro da Educação de Getúlio Vargas e ex-senador do antigo PSD, partido que se tornou célebre por abrigar algumas das maiores raposas da história política brasileira.

Entre elas, o mineiro José Maria Alckmin (sem parentesco com o atual governador de São Paulo), ex-quase tudo: deputado federal, ministro da Fazenda de JK e vice-presidente de Castello Branco.

Ele ouviu a sentença de Capanema lá pelos idos dos anos 50 – e se apropriou dela. Capanema não gostou e cobrou a autoria. Alckmin disse que, ao usurpá-la, apenas a comprovara: “O fato é que a frase é sua; mas a versão é de que é minha”.

Versão, hoje, foi rebatizada de “narrativa”. Extravasou o ambiente parlamentar e tornou-se instrumento de militância política, provando que Capanema estava certo, embora nem imaginasse o quanto. A política, não há dúvida, é o reino da versão. Os fatos que se danem. Importa como são narrados. Cabe ao público decifrá-los.

A ideia de que o impeachment de Dilma Roussef foi um golpe parlamentar, sustentada por petistas e aliados, pretende prevalecer sobre os fatos. E se serve do próprio legado petista – a ruína econômica do país – para fazer crer que seus sucessores são socialmente perversos. O arrocho que já se impõe sobre o país decorre, segundo essa narrativa, da insensibilidade dos não esquerdistas em distribuir renda e benefícios.

O fato é que já não há renda para benefício algum. E que os cortes nos programas sociais, na educação, saúde e segurança, precedem o advento de Michel Temer. É obra do PT, que, de quebra, depenou algumas estatais, incluindo a maior delas, a Petrobrás.

Temer tem em mãos um país moribundo, com a política sob absoluto descrédito, em que já não há espaço para maquiar contas e fingir que tudo vai bem. Dilma esgotou as possibilidades de truques. Deixou apenas os fatos e levou consigo as narrativas.

Há, porém, cada vez menos pessoas interessadas nelas. Como secou a fonte das verbas que irrigavam (e animavam) os “movimentos sociais”, restou uma militância esquálida, que, para chamar a atenção, cobre o rosto com máscaras e depreda o patrimônio público. Os tais black blocs – a militância criminosa.

As reformas que virão – trabalhista, tributária, previdenciária, política – tornaram-se imperativas. Todos sabem disso. Esses são os fatos, mas eles não rendem votos, nem aplausos. Ninguém sorri na mesa de cirurgia – e é onde o PT deixou o país: na UTI.

A narrativa falsificada, instalada há décadas, vem mais de cima, da burguesia esquerdista (contradição em termos, mas absolutamente real), nas universidades e meios culturais. Há dois documentários sendo montados sobre o impeachment. Ambos estão empenhados em mostrá-lo como golpe, para difundi-lo em escolas, academias, redes sociais e festivais internacionais.

Perderam a batalha política no Congresso, mas querem ganhá-la na opinião pública, interna e externa. Contam com a hegemonia cultural esquerdista, que se instalou desde o regime militar, que caçava guerrilheiro enquanto o meio pensante – mídia, escolas, universidades, meio artístico – era sitiado pela política gramsciana de ocupação de espaços estratégicos para empreender a revolução cultural, devidamente vitoriosa.

Ela impôs a linguagem corrente. Aquele que não subscreve o discurso esquerdista, então é fascista ou “de direita”. Conservador, visão política plenamente respeitável nas democracias mais adiantadas, tornou-se palavrão. Essa nomenclatura pré-fabricada intimida, pois exclui e estigmatiza quem a carrega.

À direita, põe-se tudo o que não presta, inclusive aquilo que tem origem na esquerda: fascismo e nazismo, ideologias que têm no Estado, assim como o comunismo, o centro e o fundamento de sua doutrina. Mussolini, fundador do Partido Fascista, militou antes no Partido Comunista Italiano. E Hitler presidiu o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, cuja sigla original, vejam só, era PT. Depois virou nazista, síntese de nacional-socialista.

Até a invasão da União Soviética pela Alemanha, ninguém divergia sobre o fato de que nazismo e fascismo eram variantes das doutrinas revolucionárias de esquerda. Após a guerra, a esquerda decidiu se higienizar e colocou os seus primos derrotados à direita.

Mas não há como colocar no mesmo lado do espectro político o liberalismo e o nazi-fascismo, o Estado mínimo, de Adam Smith, e o Estado Máximo, de Marx, Mussolini e Hitler.

Mas assim é. Danem-se os fatos.

O PT fez sua escalada na política com um discurso moralista em que cada adversário era corrupto até prova em contrário – ou mesmo depois da prova em contrário. Ao chegar, promoveu a maior lambança moral de que se tem notícia.

Eduardo Cunha, diante de Lula e Dilma, é mero aprendiz. O que lhe coube na rapina da Petrobrás, é troco, diante das cifras já conhecidas, desviadas para os cofres do PT e para os bolsos de seus dirigentes. Há três tesoureiros do PT condenados. Dois ex-presidentes, José Genoíno e José Dirceu, foram condenados. Genoíno conseguiu indulto, benefício que se concede a condenados.

Mesmo assim, o partido se sente no direito de falar em golpe e chamar de corruptos seus parceiros. Parece absurdo – e é. Mas convencer uma opinião pública inculta, não: questão de narrativa.

O fato acima da versão, como constatava Capanema, há mais de meio século. A História, no passado, era escrita pelo vencedor. Hoje, os derrotados a assinam – com (perdoem Machado e Braz Cubas) a pena do deboche e a tinta do ressentimento.

Ruy Fabiano


Compartilhar:

Não há comentários ainda.

Deixe seu comentário

Seu email não será divulgado.