Sinal de vida


As medidas anunciadas pelo governo acertam na hierarquia do enfrentamento da crise ao priorizar a redução do endividamento de pessoas físicas e jurídicas, sem a qual não é possível reanimar a economia.

O círculo vicioso gerado pelas dívidas que travam a atividade empresarial só pode ser interrompido, no estágio atual, por meio de mecanismos que viabilizem seu equacionamento a longo prazo, combinado com retorno do acesso ao crédito em curto prazo.

No caso das dívidas tributárias, seu equacionamento reabilita as empresas à retomada de créditos básicos à sua sobrevivência e capacidade de investimento, especialmente importante para as pequenas e microempresas que respondem pelo maior número de empregos no país.

A fórmula, que quebra a rotina simplista e viciante do Refis, também é engenhosa, na medida em que premia os adimplentes ao tempo em que socorre de forma responsável os devedores.

A oxigenação do BNDES, com o fim do ciclo do crédito farto para eleitos em um regime de capitalismo de Estado, redemocratiza os recursos, além de também criar canais de refinanciamento de parcelas das dívidas.

As demais medidas, combinadas com a limitação dos gastos públicos, têm efeito em prazo mais longo, mas ajudam a resgatar a expectativa alimentada pelo mercado desde o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Ali, a esperança de crescimento esgotou-se ante a constatação de que a queda da economia se explicava pela insistência em um modelo ideológico anacrônico, que responde hoje pela gravidade da crise.

Desde a percepção de que o governo Temer exibia uma espécie de paralisia determinada pela tempestade política, o mercado se pergunta se ainda é possível avançar no combate à recessão com o governo que representa o Plano B deflagrado com apoio da população e do sistema produtivo.

Não há plano C, mesmo com outros perfis no comando do País. O problema é que mudanças de vulto, como novas eleições, adiariam ainda mais a retomada do crescimento, mas começaram a ser admitidas diante de uma inércia enervante para o mercado e preocupante para a sociedade como um todo.

As medidas da hora estão longe de esgotar o repertório necessário para o resgate da economia, mas representam um alento na medida em que a área econômica do governo deu sinal de vida e sugere que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tem um roteiro a cumprir.

Demorou mais que o recomendável para compensar o desgaste político do governo, mas certamente evidenciará como o foco na economia tem grande poder no esforço de diluição da crise.

O que poderá ficar mais claro com o início de um ciclo da queda dos juros, a partir de janeiro.

O embate institucional misturado a uma série de revelações diárias de escândalos de corrupção, sem qualquer elemento renovador no âmbito da gestão de governo, já estabeleceu uma espécie de depressão coletiva, em que a descrença em uma saída do labirinto prevalece.

Há muito ainda a ser percorrido, mas o governo precisa encontrar sua forma de fazer economia de manhã, de tarde e de noite, mesmo em meio ao tsunami político.

E, sobretudo, se comunicar de forma didática com a sociedade, especialmente quando os conteúdos das reformas, por complexos, são mais assimilados pelo sacrifício que impõem do que pelo futuro que projetam.

A turbulência vai continuar, mas o governo falou com a sociedade pela primeira vez fora da pauta defensiva.


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1 Comentário

  • Perfeito! As medidas são um alento. Dão materialidade à lógica do governo para sair do poço, que imaginávamos sem fundo. A sua análise é precisa. Há apenas uma preocupação: a máquina do Estado é lenta. As medidas, em sua maioria, dependem de avanço tecnológico para serem implementadas. A tecnologia utilizada pela fazenda é estatal 😱. Neste sentido, há a necessidade de direcionamento total dos recursos tecnológicos e para além destes. Em soma, existe a dificuldade de convergência e consenso entre as estatais envolvidas, que possuem interesses políticos diversos. Torcendo para que a equipe econômica seja, de fato, empoderada para fazer o que tem que ser feito.

    Elaine Santos 16.12.2016

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