Sinais contrários

//Sinais contrários
Previdência

A impopularidade que já não incomoda o presidente Michel Temer, pela sua irreversibilidade, é a mesma rejeitada pelos parlamentares que têm encontro marcado com o eleitor em 2018.

Por isso, a reforma da Previdência subiu no telhado, interrompendo o ciclo exuberante de vitórias do governo no Congresso e semeando dúvidas no mercado quanto à fidelidade da base aliada.

De fato, ela não é a mesma quando chega a vez da Previdência na pauta das reformas, como alertou esse blog ainda em 2016.

Além de naturalmente impopular, opor-se a ela passou a ser uma esperança dos congressistas alcançados pelas delações premiadas na Lava Jato que, antes das consequências judiciais, produziu condenações políticas que se insinuam devastadoras para 2018.

Já na votação da terceirização, primeiro passo de reforma trabalhista mais ampla, os números indicaram grande divisão na base e promessa de revisão pelo Senado da matéria aprovada na Câmara.

O que só não ocorreu porque o presidente Temer sancionou a terceirização sem dar chance ao Senado de revê-la, mas abrindo pretexto para retaliação por parte do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que agora lidera uma oposição ao governo.

A reforma trabalhista, numa escala hierárquica, situa-se um grau abaixo da Previdência no rol das medidas impopulares, por dar combustível à mobilização do mundo sindicalista.

E há uma relação de causa e efeito entre o vazamento das delações sob sigilo e a retração dos parlamentares da base do governo, que não é casual.

Ao provocar danos eleitorais com os vazamentos, as corporações do andar de cima – Judiciário e Ministério Público -, contribuem para a rejeição das reformas da Previdência e trabalhista, às quais também combatem em sintonia com as corporações trabalhistas.

Não custa lembrar que a liminar do ministro Marco Aurélio de Melo que apeava Renan Calheiros da presidência do Senado ocorreu poucos dias antes de findar seu mandato à frente da Casa, fazendo com que seu único efeito prático fosse o de inviabilizar a votação da emenda do teto de gastos públicos, preliminar da reforma da Previdência.

Não aconteceu, porque o plenário do STF se dispôs a pagar o preço de enfrentar o clamor popular que pedia a queda de Renan, revogando a liminar de Mello.

Mas agora a reforma da Previdência fica ainda mais difícil depois dos vazamentos se somarem à Lava Jato na ameaça à reeleição de parlamentares expostos nas delações.

O mercado já não conta mais com o prazo de junho, dado pelo governo, para o desfecho da votação da Previdência. Acha que se ocorrer até setembro ainda será razoável, porque depois disso dificilmente acontecerá mais alguma coisa.

A incógnita que aflige os investidores diz respeito ao tamanho da lipoaspiração da versão original da reforma enviada pelo governo ao Congresso. Temem que o governo seja obrigado a tal nível de concessões que não valeria à pena mais sua aprovação.

Seria uma vitória ilusória.

O problema é que hoje esse temor está mais próximo da realidade do que a aprovação de uma versão que possa significar um avanço em relação às mudanças iniciadas nos governos Fernando Henrique e Lula.

O risco é privar o governo transitório de seu maior trunfo – uma maioria parlamentar sólida capaz de aprovar a mãe das reformas econômicas.


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