Reforma envergonhada

//Reforma envergonhada

Parece a cada dia mais difícil fugir ao lugar comum de que ao governo falta comunicação direta e eficiente com o público ao qual direciona as medidas de sacrifício do ajuste fiscal.

Não deixa de ser verdade que para uma boa estratégia de comunicação é imprescindível um produto definido a ser explicado, ou se terá apenas marketing aplicado a um varejo de medidas pontuais que não formam jamais um conjunto minimamente coerente.

É desse último expediente que tem se valido campanhas e governos na última década e meia, desinformando e desorientando eleitor e contribuinte, nessa ordem em que se constrói a chegada ao poder.

No caso presente, o governo provisório de Michel Temer, dentro das limitações políticas em que atua, parece padecer do inverso: até registra uma produtividade improvável  em ambiente político adverso, mas não consegue exibi-la – muito menos capitalizá-la.

Até aqui, no espaço clássico dos primeiros cem dias, Temer aprovou medidas importantes como o fim da participação obrigatória da Petrobrás na exploração do pré-sal, o teto para gastos públicos, o resgate do papel do BNDES, além das recentes medidas emergenciais que reduzem o endividamento e reabrem acesso ao crédito.

Prepara-se, agora, para a dura tramitação da reforma da Previdência. Mas essas vitórias foram congressuais e seus conteúdos e importância não estão claros para a população, o que as torna facilmente manipuláveis pela complexidade facilitadora do discurso populista que as combate.

Nos últimos dias, o Secretário da Previdência, Marcelo Caetano (foto), conseguiu dar mais clareza às medidas propostas para a eliminação gradual do déficit do setor, mas em ambiente restrito da mídia impressa, com entrevistas em que pôde avançar na questão.

O mesmo fez o presidente da Petrobrás, Pedro Parente , que devolveu o profissionalismo à gestão da empresa. As duas iniciativas, porém, parecem próprias, desvinculadas de qualquer estratégia mais abrangente e diversificada quanto aos meios de divulgação.

Não se trata da defesa simplória de um esquema publicitário que, certamente, não alcançaria o efeito didático desejável para as circunstâncias. Mas tampouco é recomendável a resignação com uma comunicação restrita a assessoria de imprensa.

Partido que sempre recusou o protagonismo presidencial, o PMDB é calcado na vivência parlamentar, onde a comunicação está centrada no debate, na publicidade de teses e projetos e no carisma de seus atores.

Talvez por isso, circunstancialmente governo, o PMDB não disfarce o desconforto com os ônus da exposição à crítica, optando por um método que o faz se fechar em copas para reaparecer com o anúncio de medidas sem tradução leiga.

Também é provável que isso explique a repetição, no governo Temer, de uma peculiaridade de sua antecessora – o anonimato do ministério, cuja maioria de integrantes permanece desconhecida da população, embora tenha havido a redução de Pastas, ao que se atribuía a disfunção.

Na verdade, embora a crise situe o ano eleitoral de 2018 a anos-luz de 2017, o ministério político de Temer parece refratário ao desgaste político indissociável da missão reformista para a qual se dispuseram seus ocupantes desde que abraçaram a deposição de Dilma Rousseff.

A dificuldade de comunicação tem vínculo direto com a discrição de ministros ditada pela conveniência política. Outros tiveram a credibilidade arrancada pelas investigações – e, nesses casos, por mais que o silêncio desinforme, mais ajudam calados.

Donde se conclui que o governo Temer precisa da exposição positiva de todos os seus ministros e, para tanto, a reforma ministerial alardeada para fevereiro, terá que dotar o ministério não só de eficiência, mas de perfis com credibilidade mínima, comprometendo todo o governo com a causa econômica – e não só a equipe técnica hoje comandada por Henrique Meirelles.

Não por acaso, vem do condutor da reforma mais difícil e decisiva, o Secretário Nacional da Previdência, Marcelo Caetano, a afirmação de que não busca popularidade, mas apenas ser acreditado.

Não é razoável que se pretenda enfrentar a reforma da Previdência com o amadorismo verificado na comunicação do plano de segurança pública do Ministério da Justiça, reduzido a um a proposta de erradicação da maconha no País.

Pelo seu caráter salvacionista, o ajuste fiscal não só é inevitável, como nobre, mas conduzido de forma envergonhada.

Abraçando-o, o governo tem uma chance; constrangido, nenhuma.


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