Previdência desafia fidelidade da base

//Previdência desafia fidelidade da base

A falta de um cronograma de ações agrava os receios do mercado em relação ao ajuste fiscal. A hesitação do governo com o envio da proposta de reforma da Previdência é vista como um sinal de ausência de método.

Melhor seria, ao invés de exibir dúvida quanto ao momento mais adequado de encaminhar a reforma, que o governo simplesmente escolhesse uma data – ainda que só no ano que vem. Pelo menos, revelaria decisão de fazê-la.

A reforma da Previdência foi inserida inicialmente entre as medidas de cunho impopular a serem abordadas após as eleições municipais. Essa conveniência fez supor que chegaria ao Congresso entre outubro e dezembro, antes do recesso parlamentar.

Até agora, o governo deixa dúvida se ainda pensa da mesma forma. Ao que tudo indica, ficará para 2017, o que a fará tramitar na véspera da campanha eleitoral de 2018, decisiva para a continuidade da reestruturação da economia.

É tema propício ao discurso populista de oposição que, de resto, levou o país à crise financeira presente. A insegurança política inerente ao tema, porém, não autoriza a hesitação que o governo demonstra com sua apresentação.

A reforma, essencial para o programa de revitalização do país – é a agenda que justifica o governo provisório, que não pode se permitir seletividade política na pauta a que está submetido pelas circunstâncias.

O efeito eleitoral é incontornável , tanto faz a data de envio da proposta. Seu envio em 2017 só se justifica como forma de evitar a contaminação da votação da PEC que estabelece o controle dos gastos públicos.

Não é recomendável, portanto, que o tema fique em suspenso, sob pena de sugerir preocupação com o aspecto eleitoral e, por consequência, com a continuidade de um governo Temer, desconfiança que começa a ganhar corpo.

Não escapa a ninguém minimamente informado que o controle dos gastos públicos é apenas suporte para a execução de uma política de correção de rumos, na qual reformas como as da Previdência, trabalhista, política e tributária são o cardápio principal.

Mais que a hesitação, as recentes declarações do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha (foto), trouxeram profunda inquietação ao mercado por indicarem uma opção do governo por uma reforma limitada do sistema de aposentadorias.

A manifestação do ministro na direção de uma “reforma possível”, ao invés de cautela, traiu possível medo do governo de que a Previdência ponha em xeque a solidez da base parlamentar até aqui demonstrada nas votações vitoriosas.

Trocando em miúdos, tema impopular pode ameaçar a fidelidade de uma base movida a medo de um eleitorado aparentemente com limite para sacrifícios maiores. É clássica a síntese política que bloqueia essa reforma desde sempre; “Todo mundo tem um velhinho dentro de casa”.

A oposição à reforma da Previdência, portanto, pode estar dentro de casa, ou seja, na própria base governista.

Conhecido pela precisão e realismo na arregimentação de votos no Congresso – não errou até aqui sequer um placar de votação – Padilha dá peso significativo à sua fala.

Se admite que a reforma necessária não será possível, antecipa a derrota e fragiliza um presidente que já é obrigado a governar pisando em ovos. Uma especialidade de Temer, mas que também encontra limites.

A um governo que se dispôs a conduzir uma transição do porte da vivida pelo Brasil, não há alternativa à sentença de que lhe resta “fazer ou não fazer”.

Talvez seja essa percepção que explique a inflexão da expectativa do mercado em relação ao ajuste econômico.


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