A pomba da mentira

//A pomba da mentira
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Duas paixões nacionais foram atingidas recentemente por versões irreais com potencial para danos irreparáveis a marcas de consumo consolidadas: a carne e a cerveja.

A primeira por precipitação da Polícia Federal que confundiu papelão de embalagens com ingrediente processado no alimento. Foi um papelão!

O consumidor de cerveja foi subitamente assaltado por uma notícia falsa de que sua maior produtora – a Ambev – a misturava a pombos triturados. Foi uma mentira!

De comum entre ambas, o dano a marcas nacionais, já que o País é o maior produtor e exportador de carnes, assim como a Ambev é a maior do mundo em seu segmento.

O caso da carne, que já pôs no ralo milhões de dólares, é um erro por corrigir. O da cerveja, um crime ainda impune.

Como impunes estão diversos autores e difusores dos chamados fakes – a mentira em tempo real com objetivo de triturar reputações e, agora, de se transformar em arma concorrencial.

Inaugura-se, assim, na plataforma virtual o modelo concorrencial que se resume em tirar do mercado, com versões sujas, marcas construídas com trabalho e investimento, assim como já se faz no campo político.

Nem é mentira bem elaborada, como aquelas do diabo que, sabido de velho, as faz parecidas com a verdade.

Seria uma história sem pé nem cabeça, não tivesse a ave em questão pernas curtas como a mentira e não invertesse seu simbolismo de mensageira da paz.

Não serve nem como história de bruxa que se conta a crianças, pois estas precisam um mínimo de lógica.

O que torna incompreensível – a não ser por alienação cruel -, a multiplicação que recebeu nas redes sociais.

Muita gente replica sem refletir ou contestar os fakes que acessam no facebook, por achar engraçado ou que mal não farão.

Precisam entender que há, sim, mentiras cor de rosa, mas até as mentiras de amor deixam cicatrizes. A consequência é questão de tempo e pode atingir a qualquer um.

Assim como a pirataria, que até hoje é combatida menos pelo esforço de governos e mais dos segmentos por ela atingidos, o tal fake ainda é estimulado pela impunidade.

A Ambev fez um vídeo de rara precisão para definir o atentado contra sua marca. A ele poderia acrescentar que a cerveja é um prazer; a mentira, um porre; e a verdade, a ressaca.

Por ora, os que se dedicam aos fakes ainda não sentiram a ressaca. Esta depende dos que não estão mais dispostos ao papel de vítimas.

O sociológo Domenico de Masi  (foto)prevê que a era da automação, já em curso, proverá o ser humano de mais tempo livre do que de trabalho.

E aí detecta um problema: o que fazer com esse tempo livre em uma sociedade cada dia mais consumista e fútil. O ideal seria ocupá-lo com atividades que possam fazer o bem coletivo, responde.

A distância entre o ideal do sociológo e o comportamento nas redes sociais – aquelas que funcionam no tempo livre de seus usuários -, mostra que a transformação levará, pelo menos, o tempo de uma geração.

Por isso mesmo é preciso começar já a exercer o combate cidadão e cívico à prática dos chamados fakes – em linguagem clara, às mentiras em tempo real que passaram das versões políticas para o campo comercial e, se não houver freio, serão rotina entre indivíduos.


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