Pisando em ovos

//Pisando em ovos

Qualquer empreendimento, e assim uma gestão política pode ser definida, procura vender o êxito e não o risco. Esse desafio é mais verdadeiro para o governo Temer do que possivelmente aos que o antecederam nas últimas três décadas.

Por esse prisma, a recente entrevista do presidente da República ao programa Roda Viva andou pela contramão, pautada pelas dificuldades que as circunstâncias políticas e econômicas impõem ao governo provisório.

Talvez por isso, não se tenha confirmado como uma oportunidade de reduzir o grau de pessimismo geral com a travessia institucional que o País precisa consolidar e que depende essencialmente de gestão objetiva de curto prazo, combinada com medidas de sustentação para além desse breve mandato.

Nesse contexto, há questões que estão fora do alcance e controle do governo, que melhor faria se trocasse a inútil tarefa de abordá-las pelo resgate da confiança no trabalho de recuperação da economia.

O presidente até tentou se livrar dos temas negativos, ao remeter ao Congresso problemas como a anistia ao caixa dois e, no primeiro momento, recomendar que se deixem as investigações da Lava Jato sem interferência.

Mas essa aparente postura de não interferência durou apenas até a manifestação antagônica de que uma eventual prisão do ex-presidente Lula faria mal ao país, pelo suposto clima de convulsão social que provocaria.

Temer deu visibilidade à sua condição de refém de uma base parlamentar que, bem ou mal, é a de que dispõe e que até agora conseguiu fidelizar, garantindo, em média, dois terços em votações importantes.

E sugeriu vulnerabilidade aos questionamentos à legitimidade de seu mandato, ao revelar receio de manifestações hostis à possível prisão de Lula.

Não é possível conciliar a defesa da Lava Jato com profecias apocalíptícas para casos específicos, estabelecendo que melhor seria que não ocorressem. Trocando em miúdos, exceções ao rigor judicial seriam bem vindas.

Não há outra leitura para a resposta de Temer, senão a de que procura, no mínimo, evitar conflitos com o ex-presidente e, por consequência, com a militância predatória que tenta resgatar o monopólio das ruas pela violência.

Se as pesquisas e as eleições municipais legitimam as medidas pautadas pelo governo, a postura de medo o diminui e frustra o anseio geral pelo enfrentamento dos obstáculos à segurança pública, notadamente o que se materializa no veto à criminalização dos chamados movimentos sociais.

Não há regra mais desigual do que a licença para delinqüir – das invasões de propriedades à depredação de patrimônio público, incêndio de ônibus, bloqueio de estradas, ocupação minoritária de prédios públicos e assim por diante – ações determinadas pela simples contrariedade de corporações com perdas setoriais, sem qualquer conseqüência que as desencoraje.

Uma entrevista é sempre uma troca  de informações e posições- esta, pela tribuna ofertada ao entrevistado. Se conduz e se é conduzido, de acordo com o preparo de ambos, mesmo em cenário adverso ao interrogado.

Não é demais lembrar que o Plano Real, quando concebido, não dispunha de qualquer elemento que pudesse fazê-lo crível. O País saía de dois governos que se notabilizaram pelo fracasso de seis planos econômicos – o último deles traduzido no confisco de poupança que levou cidadãos à morte em muitos casos.

Falar em um novo plano soava como palavrão – e não foram poucos a criticá-lo e sentenciá-lo à morte ainda no trabalho de parto, como o PT. Mas a capacidade de comunicação de seus artífices – do presidente da República aos economistas que o construíram -, venceu seu grau de improbabilidade.

Passou-se ao público otimismo e exibiu-se método, a ponto de o cidadão assimilar mecanismos como a URV – índice de conversão da moeda, que orientou a primeira etapa de implantação do plano.

Vendeu-se o êxito e não o risco, difundiu-se confiança e, mesmo após um traumático confisco, a população topou mais um plano econômico.

Portanto, demonstrar plano, cronograma, método e clareza é mais importante hoje a Temer que a discussão pontual das dificuldades, que só realça o tamanho da montanha a ser escalada.

Dos riscos todos sabem. Do êxito, duvida-se até prova em contrário.


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