Piquenique na beira do vulcão

//Piquenique na beira do vulcão

O deputado Ulysses Guimarães, em véspera de caos, costumava advertir os políticos de que não se deve fazer piquenique na beira do vulcão.

No Vesúvio político brasileiro, o episódio que culminou na demissão de Geddel Vieira Lima, recomenda ao governo que se afaste rápido da cratera. Se der tempo.

O desmentido de Marcelo Calero de que gravara o despacho com o presidente da República, aproxima o governo da advertência de Ulysses, mas a temperatura continua alta.

Por uma razão da qual decorrem todas as demais: Temer demorou a reagir. A rigor, não reagiu – aguardou uma reação de seu ministro, que desde o início se mostrava compulsória.

Um Presidente com o perfil de Michel Temer – cinco mandatos federais, duas vezes presidente da Câmara e duas vezes vice-presidente da República -, não poderia dedicar sete dias de sua agenda a discutir um apartamento de um auxiliar que, a rigor, sequer existe.

Deve-se também não perder de vista que Calero demorou para seu desmentido. Permitiu que a versão da gravação circulasse sem contestação imediata, o que autoriza a desconfiança de que, afinal, ela exista mesmo.

Não lhe é conveniente a existência de uma gravação do Presidente. Representa um atestado de óbito da carreira diplomática – e mesmo da pública. Se hoje o motivo poderia ser defendido como nobre, amanhã poderá não sê-lo.

Incutiu no mundo político e diplomático o vírus da desconfiança. Aos seus pares internacionais, em eventual missão diplomática, sempre suscitará essa desconfiança.

Terá sido aquele que gravou o presidente de seu País. Por que não gravaria o diplomata de outro?

O desmentido também veio tarde, como o gesto de demissão de Geddel.

Como aqui já foi dito, permanece o mistério sobre a desproporção com que Calero reagiu ao conflito, em que pese a plena posse de razão que lhe sobra no mérito.

Ainda há muito a ser esclarecido. O temor demonstrado por Calero, por exemplo, quando justificou sua demissão. Entre os pontos que realçou estava o de desconfiar que suas conversas com Geddel pudessem estar sob escuta telefônica.

Tal receio não se sustenta em contexto no qual a parte em favor do ilícito era a outra.

Mas explicaria outra versão de que Calero decidiu escancarar o conflito ao receber ligação de um repórter para ouvi-lo sobre suas relações com o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral.

Teria vinculado a pergunta a uma suposta fritura decorrente de sua resistência a levar adiante o confronto com o Iphan em torno do prédio de interesse de Geddel.

Calero, do pouco que se sabe, tem origem na equipe do prefeito do Rio, Eduardo Paes, caracterizada por ter na impulsividade a base dos erros que protagonizou.

Do que é exemplo o próprio prefeito e auxiliares, como o seu candidato derrotado pelo bispo Marcelo Crivela, apesar da aprovação de sua gestão municipal.

Todas essas versões cruzadas, inclusive a desmentida por Calero sobre a gravação, indicam apenas que o episódio ainda está longe de ser completamente esclarecido.

Para alguns especialistas, por exemplo, se verdadeiro o relato de Calero sobre a abordagem de Geddel, este seria passível de enquadramento em crime de concussão – aquele que não se restringe a obter vantagem do cargo, mas de exigí-la.

O governo, como também dito aqui, parecia ter selado um pacto interno de que aquele integrante alcançado pelo fator externo, fora de controle – a Lava Jato, no caso -, sairia de cena.

Mas demonstrou não estar preparado para a demissão motivada por uma causa interna, como a que se materializa no episódio protagonizado por Geddel Vieira Lima.

Nesta, o conflito desafiou Temer a exibir discernimento entre ser dependente ou refém de sua base política, ao não aplicar o princípio de que a solidariedade tem por limite o erro.

Ao hesitar, deixou claro que o governo provisório ainda não se conscientizou da necessidade de se desvincular do comportamento individual e coletivo que levou o anterior à queda e o País à bancarrota.

É mais que reconduzir a economia aos trilhos, mostrar que deles saiu não só por incompetência de seus gestores, mas também por considerarem mais importante os próprios projetos do que o destino do País.

Não é fácil. O ex-presidente Fernando Henrique viveu o mesmo dilema com o seu ministro Clóvis Carvalho, sem qualquer gravidade similar, mas por mera divergência teórica com a área econômica.

E diz agora que “para um Presidente não há nada pior que dispensar um amigo”. Talvez por isso, se verifique a tendência de deixar que o tempo se encarregue de inviabilizar a permanência daquele já derrotado pelos fatos.

O ex-ministro Delfim Netto, quando quer criticar desafetos, define-os como gestores para os quais 70% dos problemas o tempo resolve e 30% não têm solução.

O caso Geddel conseguiu ser a soma de ambos.


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