O risco do vácuo

//O risco do vácuo
reeleição

O ex-presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), constatou que sua reeleição e a de seu filho, governador de Alagoas, estão ameaçadas.

Não atribui a causa ao rosário de processos contra ele em trâmite na instância superior da Justiça, mas ao governo do presidente Michel Temer, que não lhe abriu o espaço de poder que imaginara.

Concluiu também que a rejeição à reforma da Previdência pode ser uma forma de atenuar o desgaste produzido pelas delações no seu capital eleitoral e de outra centena de colegas de mandato.

Fora da Presidência do Senado, perdeu a natural influência no governo que o cargo propicia. Busca, então, de forma ostensiva resgatar parte dessa influência com uma oposição súbita a Temer, não por coincidência depois que o PSDB ampliou seu espaço no governo.

Como outros parlamentares nordestinos, flerta com a tese de que na região ainda representa prestígio manter algum tipo de vínculo com o ex-presidente Lula, com perspectiva de uma aliança em 2018.

Dessa forma, o comportamento do ex-presidente do Senado guarda sintonia com parcela do PMDB insatisfeita com a articulação política depois que o núcleo palaciano original foi desfeito com a saída de Geddel Vieira Lima e da fragilização política e de saúde do ministro Eliseu Padilha (foto).

A figura do PMDB com mais vigor no Planalto hoje é o ministro Moreira Franco, cuja missão principal – a de liderar o processo de concessões -, se soma agora à coordenação de comunicação e alguma articulação com o Congresso.

No hiato entre a saída de Geddel e a licença de Padilha, houve a nomeação do deputado tucano Antônio Imbassahy (BA) para a Secretaria de Governo, também com papel de articulação política.

Na palavra de um deputado do PMDB mineiro, sobrou como articulador político do partido somente o próprio presidente Michel Temer, que não pode exercer sozinho a missão, embora saiba exercê-la com raro domínio.

Renan detectou esse momento e aplicou a máxima de que não existe vácuo em política, ocupando a cena para estimular o instinto defensivo que prevalece no político ante o risco do mandato – hoje representado pela soma dos danos da Lava Jato e da impopularidade da reforma da Previdência.

Como a maioria dos parlamentares, Renan ligou o modo sobrevivência pois sente o cheiro do perigo com a perspectiva de derrota eleitoral que o aproxima da primeira instância, uma vez perdido o foro especial.

A rigor, passou a disputar a liderança de fato do PMDB explorando os ruídos entre o Planalto e sua base partidária. É um mau momento para Temer, porque insatisfação de base é como rastilho de pólvora: uma vez aceso pode aumentar a fogueira, à falta de bombeiros.

É curioso como o governo que melhor conhece as entranhas do Congresso – especialmente as do PMDB – não dispõe de um articulador político como seus antecessores em algum momento tiveram.

O presidente Michel Temer tem um problema que requer ação rápida: uma dissidência plantada em solo fértil sob a liderança do ex-presidente do Senado.

É algo que o governo precisa resolver com a urgência com que se combate um incêndio ainda de pequenas proporções.

Da mesma forma que precisa providenciar, com igual urgência, um competente “vendedor” da reforma da Previdência para enfrentar a mobilização das corporações – de cima e de baixo -, contra sua concretização.

Até aqui, o governo se utilizou das explicações de técnicos como Marcelo Caetano, insuficientes para sua tradução popular.

Pode se valer do exemplo do Plano Real, cujo êxito foi um milagre: lançado após seis ou sete planos frustrados – o último, inclusive, um confisco das contas bancárias da população -, não tinha a menor chance de emplacar.

Alvo das mesmas corporações que hoje combatem a Previdência, o Real atropelou oposição e lógica com uma competentíssima comunicação com a população.

Vale revê-la.


Compartilhar:

1 Comentário

  • Impressionante o Brasil de hoje. Sem saudosismo de velho, o que mais se vê é o poste urinando no cachorro. Aceitar, passivamente, um desclassificado como Renan (respondendo a onze processos criminais) e ainda se arvorar de líder político da Nação, ditando regras aos incautos e afrontando até o Presidente (e não discuto o mérito da briga ridícula), debaixo dos aplausos dos que verem o mar pegar fogo e apostam no pior, só no Brasil dos coxinhas e mortadelas !

    Ivan Rodrigues 07.04.2017

Deixe seu comentário

Seu email não será divulgado.