O que monitorar em 2017

//O que monitorar em 2017

Quando quase tudo está fora do seu lugar, muitos eventos, até aqueles aparentemente pequenos, ganham força suficiente para causar grandes estragos.

No entanto, para fazer uma análise útil sobre o ano que começa, é preciso definir o que é mais importante para orientar a atenção.

Ou seja, deve-se estabelecer qual será a narrativa mestre do cenário político em 2017 e as variáveis que devem afetá-la favorável e desfavoravelmente a fim de construir parâmetros de julgamento de risco.

A narrativa política atual está estruturada basicamente em torno de dois fatores.

O primeiro: este é um governo de uma única missão, estabilizar a economia.

Outras agendas, como reforma do ensino médio ou reforma política, por exemplo, entram apenas lateralmente, seja para dar alguma resposta à pressões sociais quando elas atingirem certos limites (medidas éticas, por exemplo) ou para servirem de “bode na sala”, desviando atenção do tema central.

Nesse sentido, as duas agendas vitais para o governo que devem dominar o primeiro semestre (com boa capacidade de escaparem para o segundo) são a reforma da previdência e o acordo quanto às dívidas dos estados.

Mais do que ser bem sucedidos nelas, o governo precisa mostrar que é capaz de formular e conduzir uma política econômica. Daí entra o segundo elemento: as condições institucionais necessárias para que as agendas econômicas prosperem.

Nesse sentido, o que deve ser acompanhado é a validade do trade off feito entre o Presidente Temer e o Congresso, traduzido em um binômio, como definiu o jornalista João Bosco Rabello, entre notáveis e notórios.

De um lado está a equipe econômica qualificada e blindada de interferências políticas e do outro uma distribuição de recursos e poder a políticos investigados para assegurar base sólida a votações essenciais.

O efeito colateral é a anuência presidencial para uma agenda paralela de sobrevivência dessa base, como ficou evidente na votação das medidas anticorrupção e na tentativa frustrada de anistiar políticos com problemas de caixa dois.

Por enquanto, o modelo tem funcionado, com Temer e sua equipe econômica recebendo bom nível de apoio em votações importantes, em especial, na aprovação da PEC do Teto, mas não sem turbulências, como mostram as baixas no próprio governo.

Naturalmente, este modelo não pode e nem pretende vida longa, dado que nasceu unicamente das circunstâncias e por elas é mantido.

Daí a percepção generalizada de que ele é frágil. Nesse sentido, a pergunta que deve ser feita é: o quão frágil ele é? A ponto de cair no ano que vem?

O que sustenta esse modelo é, primeiro, a necessidade e o medo de que as coisas podem piorar muito, pois ninguém nega que sua revogação aprofundaria ainda mais a crise, talvez ao ponto de produzir distúrbios sociais amplos.

Duas variáveis devem ser monitoradas para servirem de termômetro da durabilidade do governo Temer.

Primeiro, a manutenção ou não da sua capacidade de continuar processando e aprovando a agenda econômica. Enquanto continuar operacional na aprovação da agenda econômica, manterá o suporte dos setores de mercado, mesmo que com algumas discordâncias.

Segundo, a tolerância das ruas com os termos desse arranjo – reformas econômicas ao custo da sobrevida dos partidos.

As últimas manifestações de classe média já sinalizaram que governo e congresso estão no limite perigoso. Por enquanto, as pessoas gritaram apenas um “Fora Renan” e um “Fora Maia” indicando que elas já detectaram uma parte deste trade off, mas lhes falta ainda identificar a intensidade da contribuição do presidente Temer para o seu funcionamento.

Quando e se isso acontecer, terá sido dada a senha para que o TSE/Congresso faça a sua substituição.

Se o governo pode cair ou não em 2017, depende de uma dessas duas variáveis. Os eventos que ocorrem lateralmente concorrem mais ou menos para que uma dessas sentenças ocorram.

Nesse sentido, os principais fatores de risco são:

a. Sequelas na base promovidas pela disputa entre PSDB e Centrão pela condição de parceiro preferencial do governo;

b. Racha da base proporcionado pelo reposicionamento dos atores com vista às eleições presidenciais (defecção do PSB, divisão do PSDB);

c. Aumento da pressão pela substituição do ministro da Fazenda, seja pela demora de resultados, seja por pressões corporativas e empresariais represadas;

d. Não aprovação da reforma da previdência;

e. Novas denúncias da Lava Jato combinada com movimentos duvidosos por parte do governo e a seu respeito;

f. Aumento do nível de conflito entre Ministério Público e os poderes (incluindo o STF!) que pode gerar uma situação de autofagia institucional, com forte poder de desestabilização;

g. Fracasso no engajamento dos Estados em um esforço fiscal coletivo e abrangente.


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1 Comentário

  • Sinais já mostram movimento de contestação contra o governo Temer da sociedade civil, o qual não tem vinculo com partido. Penso que o governo Temer vai perde estabilidade quando mais forte forem o Tchau Temer no lugar do Fora Temer. Ainda temos insatisfação do movimento empresário com ausência da Reforma Tributária, o qual gerar insegurança jurídica e elevar o custo do investimento em comparação com países vizinhos. Empresários esses que pode alimentar o movimento de contestação ao governo com apoio financeiro ao Tchau Temer. A insatisfação e a revolta no mesmo caminho. Movimento duvidoso do governo Temer em relação a Lava Jato pode mostra o momento que pode acontecer essa desestabilização. Será que PresidenteTemer sacrificaria o Renan Calheiros para manter essa estabilização?

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