O Bispo e o apocalipse

//O Bispo e o apocalipse

O apocalipse carioca chegou antes do Bispo, enquanto a “esquerda” adormecida em seus próprios devaneios ideológicos cuidava de pregar a possibilidade de vitória de Marcelo Crivella ( foto)como o fim dos tempos.

Nesse contexto, procurou levar o eleitor a adotar uma suposta política de redução de danos, na qual o outro Marcelo, o Freixo, seria o mal menor. Não convenceu: a ruína financeira do ciclo do PT no poder, especialmente a partir do segundo mandato de Lula, que produziu o maior número de desempregados da história recente, falou mais alto.

Eleito Crivella, o discurso dessa esquerda passa a ser o do fim dos direitos das minorias e de todos os avanços democráticos que na história própria redigida pela propaganda do PT, do qual é sucedâneo o Psol, começou na primeira eleição de Lula.

A ninguém é razoável imaginar que Crivella poderá fazer um governo religioso-fundamentalista em uma capital como o Rio de Janeiro. Se verdadeiro que seu mandato é sonhado pelo seu rebanho como a afirmação da Igreja Universal, ele é o primeiro a saber que essa construção depende de uma gestão competente.

Crivella foi eleito no ponto limite de um estresse da população com um interminável debate ideológico que desidratou os serviços públicos a partir de uma inoperância dos poderes executivos. A pauta própria dos parlamentos, em todas as suas instâncias, passou a ser dos governos e a administração foi à falência.

O alto índice de abstenções, que precisa ainda ser depurado com a atualização dos cadastros da justiça eleitoral, é um sinal claro do desalento com a ineficiência dos agentes públicos, aferrados a uma cultura política cujo fim foi adiado por, pelo menos, três décadas, quando o mundo iniciou a era da informática.

Até ali, o controle da informação, essencial a ditaduras de qualquer matiz, era possível ainda. Serviu a coronéis regionais, militares, esquerda e direita, indistintamente. Seu maior reconhecimento foi do ex-diretor do Senado Federal, Agaciel Maia, que dava vigência a atos em papéis guardados na gaveta, mas que não punha no sistema da instituição para mantê-los reservados a poucos.

Criou 600 desses atos, até ser descoberto. Sabia, então, que a informática conspirava contra sua pequena ditadura interna, mas errou ao achar que poderia contorná-la.

Os parlamentares, porém, não acordaram para essa realidade ainda, como é possível concluir pelo mensalão, petrolão e similares. Além dos crimes contra o patrimônio público, pareciam certos da impunidade. Jamais seriam rastreados e descobertos.

Em outra ponta, mantêm o comportamento da omissão em temas que consideram de risco para seus mandatos, como a questão do aborto, homofobia, Estado laico, educação (que abrange todos esses), saúde e outros.

Como diz o sociólogo Paulo Delgado, cuja biografia o encontra na origem da fundação do PT, o objetivo do político deveria ser o de exercer o mandato – e não o de preservá-lo a qualquer custo. A prevalência desse último (des) critério é que responde pela omissão em assuntos essenciais que acabam remetidos para o Poder Judiciário.

É o ciclo que deu vitalidade ao Poder Judiciário como agente político sem a representatividade popular. E que alcança seu grau máximo na atual fase de transição institucional delicada que o país atravessa desde o início da assepsia conduzida pela operação Lava Jato, que enfraqueceu moralmente o Parlamento.

É o STF, hoje, o depositário e condutor dos grandes temas nacionais, que não avançaram no Congresso e que travaram a pauta do Executivo na década e meia do PT no Poder.

Crivella é produto made in PT/PMDB que, em aliança, governaram o Rio nos últimos oito anos. E que agora, no plano federal, se digladiam.

O Bispo parece ter sido o que restou aos cariocas como porta de saída do jugo a que foram submetidos por gestões caracterizadas pela soma de corrupção e de uma falsa ideologia a serviço do populismo.


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