Nos limites da pinguela

//Nos limites da pinguela
Serra

O índice de oito “baixas” ministeriais em nove meses de gestão do presidente Michel Temer é indiscutivelmente alto, porém previsível.

Temer opera com uma base política vulnerável às investigações da Lava Jato e desde sempre se soube que seu desafio seria administrar o conflito ético daí decorrente com a necessidade de uma base parlamentar sólida.

Não por vontade, mas por imposição dessa realidade, Temer governa na contramão da máxima política segundo a qual não se deve contratar quem não se pode demitir.

As demissões deste governo quase sempre se darão por ações externas ou falha de comportamento dos próprios exonerados, fora do alcance de defesa presidencial.

Foi assim com Geddel Vieira Lima, Romero Jucá, Fabiano Silveira, Henrique Alves, e com o Secretário da Juventude, Bruno Julio.

Não se aplicam as mesmas causas a José Serra, Marcelo Calero e Alexandre de Moraes, mas de qualquer forma é uma oportunidade de melhorar o desempenho ministerial, já que as três exceções, por razões distintas, não se adequaram aos cargos.

Nesse contexto, é que as “baixas” devem ser grafadas com aspas. São, na verdade, oportunidades de Temer requalificar o ministério, reduzindo o número de notórios em relação aos notáveis.

A saída de Serra se deu efetivamente por razões médicas, mas o senador fez a relação custo/benefício que lhe ditou a inconveniência de sacrificar mais a saúde pela permanência em um cargo que não lhe motivava.

Serra sai quando Temer começava a se concentrar na escolha do novo ministro da Justiça o que, certamente, precipitou a opção pelo deputado Osmar Serraglio (foto).

O presidente ainda dava sinais de que poderia se orientar pela escolha de um jurista, ou um perfil mais apropriado às demandas da Pasta, agora com foco predominante na segurança pública.

Mas a vaga aberta na Chancelaria amplia a pressão do PMDB por mais espaço, iniciada desde o ingresso do PSDB na estrutura de governo.

Assim, Serraglio aplaca o ânimo peemedebista e sua escolha para a Justiça pode permitir que a sucessão de Serra se mantenha na órbita tucana, onde os nomes mais falados são dos senadores Aloysio Nunes Ferreira e José Aníbal, ambos de São Paulo.

Próximo de Temer, com quem mantém permanente canal de diálogo, Aníbal tem mais chance também pela condição de suplente de José Serra no Senado, de onde terá que sair para que o titular retorne.

Acima disso, o senador José Aníbal é um quadro consistente do partido, com conhecimento econômico e cultura cosmopolita suficientes para credenciá-lo ao cargo. E experiência na vida pública como parlamentar e Executivo.

Com a escolha de Serraglio, em atendimento à bancada do PMDB, Temer pode não ir pelo melhor caminho, que seria um ministro da Justiça menos estigmatizado pelas posições recentes na Câmara, onde foi aliado de Eduardo Cunha e acusado de empenhar-se para evitar sua cassação.

Mas estigmas não faltam – ao contrário, abundam -, no universo político hoje.

Serraglio é advogado, Mestre em Direito de Estado e parlamentar veterano.

Foi o relator da CPI dos Correios, entre 2005 e 2006, que embasou a denúncia formal do mensalão. Votou, anos mais tarde, pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Essa navegação em mar instável produziu a síntese da “pinguela”, analogia realista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com o programa “ponte para o futuro” do PMDB pós-impeachment.

E deve acompanhar toda a gestão do presidente Temer, cujo paradoxo é se apoiar em um Congresso frágil e comprometido com a velha política para aprovar reformas que nenhum antecessor conseguiu.

Não há virtude, mas pragmatismo do Legislativo e do Executivo, que têm na ressurreição da economia a única perspectiva de atenuar os efeitos colaterais da desintoxicação compulsória do organismo político.

A baixa expectativa em relação a Temer é o seu maior trunfo. Outro paradoxo made in Brazil.


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