Na calmaria do recesso

//Na calmaria do recesso

Houve tempo em que a calmaria do recesso de fim de ano, prolongado para Legislativo e Judiciário, serviam para interromper crises, administrá-las e emergir das férias com acordos selados.

Serviram também a governos para revisão e formulação de ações e estratégias sem a exposição da rotina – uma espécie de trégua que o ex-senador Marco Maciel (foto) chamou, certa vez, de efeito-calendário.

É o que farão o presidente Michel Temer, com uma mão na economia e outra na política, os procuradores do Ministério Público e o ministro Teori Zavascki com as delações da Odebrecht, a Polícia Federal com prováveis operações de campo e a equipe econômica às voltas com o ajuste fiscal.

É calmaria na aparência, portanto, pois desde sempre esconde bastidores de intensa articulação política. A de agora, especialmente, repete a da frota de Cabral antes de aportar aqui – desta vez, para a redescoberta do Brasil.

Temer trabalha para que a reeleição de Rodrigo Maia à presidência da Câmara ocorra sem rachar a base e para que a sucessão de Renan Calheiros no Senado não produza efeitos colaterais para o governo.

(Na verdade, Renan esbanja otimismo, pois a Lava Jato permanece como a grande variável do jogo e seus recentes embates com o Ministério Público e com o Judiciário deixaram arestas que serão aparadas em algum momento).

A recuperação da economia, por ser necessariamente mais lenta que a avidez pelo curto prazo, projeta dias turbulentos, especialmente quando entrar em cena, para valer, a reforma da Previdência.

As reformas serão mais torturantes quanto maior a resistência da classe política que rejeita o fim de um modelo de comportamento siamês dos negócios e distante da população.

Na véspera do Natal, o Rio teve mais 128 milhões de reais bloqueados por inadimplência na dívida com a União. Com isso, foi obrigado a rever o cronograma do parcelamento dos salários dos servidores.

Uma semana antes, a Câmara aprovou a renegociação das dívidas estaduais, suspendendo as contrapartidas que condicionavam o socorro federal e que foram acordadas com a área econômica de Michel Temer.

Na ocasião, o ministro Henrique Meirelles, da Fazenda, afirmou que as contrapartidas serão exigidas , caso a caso, de acordo com o esforço de ajuste aprovado pelas assembleias estaduais.

Que resistem à mudança de padrão na administração dos gastos públicos.

O que se tem, portanto, é um obstáculo à extensão do chamado teto para os gastos federais aos Estados em um desejável efeito dominó, sem o qual não é possível a uniformidade do ajuste fiscal.

Endividados, aos Estados foi ofertado um plano emergencial traduzido em renegociação da dívida, com sua suspensão temporária em alguns casos por até 20 anos, condicionada à limitação do crescimento dos gastos.

Com a decisão da Câmara que aprovou apenas os bônus do acordo, sem as contrapartidas, e com a reação da Fazenda, os ganhos dos servidores funcionarão como chantagem sobre o governo federal, impondo à população a ideia de que o ajuste custa o calote trabalhista e imensa dívida social.

Na verdade, vive-se a fase da resistência à transformação do padrão da política, o que abrange a gestão pública, com alianças suprapartidárias empenhadas em manter as velhas formas.

Mas as mudanças são inevitáveis e, como registra o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, “não existe cesta de 20 pontos”, portanto, resultados requerem disciplina e paciência – e quanto antes começar, melhor.

Esse teatro de operações continua em cena, apenas com as cortinas fechadas à platéia, até fevereiro.

Se tanto.

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