Inversão de expectativas

//Inversão de expectativas

Há uma angústia crescente no mercado com a percepção de queda no ritmo do ajuste fiscal e do grau de incerteza imposto pelas investigações da Lava Jato desde o acordo de delação da Odebrecht.

O sentimento de insegurança consolida o diagnóstico de que a expectativa positiva gerada pela mudança de governo sustentava-se mais na saída da presidente Dilma Rousseff do que nas eventuais virtudes do seu sucessor.

Os efeitos positivos da mudança são admitidos, mas nesse momento parecem aos olhos da governança do capital estacionados. Sim, melhoramos pontualmente, aqui e ali sinais nesse sentido são percebidos. Mas a visão de porto mais seguro ficou distante no horizonte político nublado.

Ao avaliarem as dificuldades do governo de Michel Temer, empresários se perguntam se, apesar delas, o presidente está realmente empenhando todo seu potencial para forçar passagem no acidentado calendário político com o qual é forçado a trabalhar.

Na política, o tempo é ferramenta de trabalho que serve tanto para compassos de espera táticos, quanto para acelerações em momentos decisivos. A pressa do governo, embora anunciada, não parece em sinergia com a do mercado.

O capital trabalha com projeções de curto e longo prazo e, este último, não se mostra possível no Brasil de hoje, diante de um chão instável em que os comportamentos parecem (des) orientados para soluções de emergência desconectadas com o futuro.

A sólida maioria parlamentar (em média, dois terços), que o governo tem exibido, mostra-se vulnerável à dispersão provocada pela concentração dos políticos com a busca de saídas para a sobrevivência de seus mandatos.

Por mais importância que possam dar à urgência das mudanças econômicas, um contingente estimado em, pelo menos, 300 parlamentares, move-se pelo instinto de defesa ante o avanço , bem mais célere, das investigações que os envolvem.

As medidas de defesa corporativa se impõem às esperadas pelo país, como indica a hierarquia do noticiário político puxada pelas articulações de anistia para os crimes de caixa dois, de uma legislação casuística contra suposto abuso de poder, de afirmação da soberania do Congresso e uma série de ações defensivas que empurraram para um plano secundário as preocupações de primeira hora com a economia.

É esse descompasso que representa o desafio imediato do presidente Michel Temer e que começa a incutir nos investidores a dúvida sobre sua capacidade de superá-lo em tempo hábil.

Em política não há vácuo. Cada espaço vago é ocupado, como demonstra a gradual desinibição da oposição que passa lentamente da ressaca da derrota para o pragmatismo demonstrado no enfrentamento da emenda constitucional que institui o teto para gastos públicos.

Até agora, por exemplo, o governo federal não explorou a derrocada financeira do Rio de Janeiro – que, da noite para o dia , empobreceu em 30% os servidores, inclusive aposentados – em favor de sua proposta de controle dos gastos.

O cenário carioca resulta da gestão de uma década da aliança PT/PMDB sem controle de gastos – ao contrário, sem qualquer pudor ético e legal no uso dos recursos públicos, com governantes capazes de enriquecer com um único anel de brilhantes presenteado por empreiteiro.

Não obstante, são esses mesmos aliados os opositores mais ruidosos da imposição de um teto de gastos, que aplicam medidas similares às impostas à Grécia , com o olhar de paisagem própria dos dissimulados.

O drama carioca é, portanto, o exemplo mais consistente em favor do controle racional do gasto público, cuja materialização, por si só, permite aos investidores um mínimo de prospecção para aplicação de seu capital.

O governo precisa estar atento para a relação de causa e efeito entre a queda no ritmo de avanços e a deterioração de seu único capital que é a recuperação da economia e do emprego.

Uma comunicação mais intensa com a população e uma interlocução mais assídua com o mercado precisam ser retomadas, preferencialmente com um cronograma de ações que devolva a expectativa inicial dos dias que se seguiram ao impeachment de Dilma Rousseff.


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