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O presidente Michel Temer não precisava de uma crise interna para realçar a sua dificuldade política em demitir ministros ou promover trocas de comando em sua base de sustentação parlamentar.

Desde sempre se soube que a Lava Jato se encarregaria de facilitar essa tarefa poupando-lhe o desgaste político e pessoal, oferecendo ao presidente a causa externa fora de seu controle para cada cabeça ceifada.

De fato, a vulnerabilidade da maioria dos políticos às investigações impôs uma espécie de pacto tácito pelo qual aquele alcançado pelos tentáculos de Curitiba deixa seu posto, qualquer que seja, sem expor o Chefe de Governo.

A queda seria, assim, sem ônus direto para o presidente. Afinal, não há como se manter alguém investigado em posto de comando – realidade já formalizada pelo Supremo para presidentes do Legislativo.

De tal forma, uma vez alcançado pelas investigações, a consequência política, que precede a penal, tem raiz na conduta do próprio atingido, uma vez detectada pelo radar dos investigadores.

Eis que surge o fato a romper o padrão estabelecido para poupar o Presidente da iniciativa da demissão. Fora da órbita da Lava Jato, e assemelhadas, um ministro é flagrado em conduta, no mínimo, imprópria.

Pior, denunciado por um colega que valoriza sua versão com o pedido de demissão. Não deu ao Presidente a oportunidade do apelo pela permanência.

Já não se discutia, então, o ato denunciado, mas se é suficiente para provocar a saída do ministro acusado.

Dando nomes aos bois, extrai-se da sangria do ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, acusado pelo agora ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero (foto), de tráfico de influência, a medida exata da fragilidade do Presidente da República.

Não sua necessariamente, mas a que lhe transfere uma base política cuja blindagem não resiste mais à ação do tempo, à inteligência tecnológica investigativa e à determinação do Ministério Público e do Judiciário de passar a limpo o País.

O PMDB mantém fidelidade ao enredo que se impôs de figurar como o partido mais influente junto ao Poder, abdicando historicamente da Presidência da República.

Sempre preferiu a sua capilaridade eleitoral e força política parlamentar à chefia do Executivo Federal, o que o manteve permanentemente fora da exposição direta que corrói o capital político dos inquilinos do Palácio do Planalto.

Geddel abordou Calero como quem recorre a um correligionário, no âmbito partidário, esquecendo-se por um tempo que agora é o governo. E um dos principais pilares da articulação política do Planalto.

O caso está, depois de idas e vindas, no âmbito do Conselho de Ética da Presidência da República, que já sinalizou majoritariamente por alguma condenação a Geddel – da advertência à recomendação pela demissão.

Em qualquer hipótese, o presidente Temer está desafiado na sua autoridade política diante do comportamento reprovável de um ministro.

E Geddel mais fragilizado também junto à base parlamentar que lhe dá sustentação no episódio.

Como articulador político agora é devedor de uma solidariedade cuja hipoteca costuma custar mais caro ao governo.


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