Foi-se a pinguela

//Foi-se a pinguela
Michel Temer

 

Em circunstâncias institucionais normais, já seria difícil ao presidente Michel Temer sustentar-se no cargo após o conteúdo da gravação de sua conversa com o empresário Joesley Batista.

O que restava de autoridade política ao presidente da República esvaiu-se com a revelação de que o distanciamento proclamado entre ele e a banda podre de sua base de apoio era apenas oratória.

Com a iminência da divulgação da fita com a gravação, antes de seu pronunciamento marcado para as 16 horas, Temer poderá em sua fala já anunciar a renúncia sob pressão de sua base.

A base que era seu cacife para permanecer no cargo pela perspectiva de aprovar as reformas, agora já lhe falta.

O abraço com a banda podre lhe pode ter sido fatal. Restringir à economia o quadro ministerial de excelência foi sempre um risco, que dependia de comportamento litúrgico que o PMDB jamais teve.

No Poder, o PMDB que dominou historicamente o Parlamento manteve o comportamento de bancada, como demonstrou o episódio do ministro Geddel Vieira Lima, padrão de referência dessa faceta do partido.

Emerge como atestado desse teatro a figura do deputado Rocha Loures, desde sempre homem de confiança de Temer, seu assessor direto na vice-presidência, destacado para a preservação do silêncio de Eduardo Cunha, segundo o Ministério Público.

Esse é o elo material obtido pela Polícia Federal a partir do conteúdo da gravação em que Temer, no mínimo, estimula Joesley Batista a  manter auxílio a Cunha.

Loures faz parte de uma conta conhecida em Brasília: a que separa em partes iguais o espectro ideológico da Câmara – 150 parlamentares à esquerda e o mesmo número à direita e ao centro.

Os demais 213, distribuídos por outras legendas, são os que negociam posições, sejam quais forem. Essa parcela obriga os governos ao toma lá dá cá – um eufemismo franciscano para compra de votos.

Com Temer não foi diferente, a não ser pelo fato de não ter a cautela de antecessores. Foi flagrado por gravação programada por quem não supunha já estar a serviço da Polícia Federal.

O strip tease agora é da República. O lastro político moral que ainda restava ao governo provisório – o PSDB – foi atingido de morte com a queda de Aécio Neves, seu presidente, de cujos arquivos, já sob controle da PF, devem surgir novos escândalos multiplicando vítimas.

Debates jurídicos sobre as próximas cenas não conseguem tirar o foco do principal: sem autoridade política não se governa – e Temer, que já a tinha pouca, desde ontem não a possui na escala necessária.

Com pedido de impeachment mais sólido e fundamentado que o de sua antecessora, por obstrução de justiça, a renúncia poderá abreviar seu calvário – e o do País.

Nesse contexto já é perceptível, desde ontem, na base do governo e no mercado, a confluência pela opção da saída imediata do Presidente abrindo caminho para o cumprimento da Constituição, que prevê a posse do presidente da Câmara e convocação de eleição indireta em 30 dias.

Por trás de reação tão imediata, esconde-se a esperança de base e mercado por uma saída ao mesmo tempo constitucional e capaz de preservar o andamento da reforma da Previdência, que sob a regência de Temer não tem mais qualquer chance de emplacar.

A questão, portanto, volta a ser o tempo: um longo processo de convencimento do Presidente para esse gesto, como ocorreu com Fernando Collor em 1992, poderá precipitar a eleição direta por via de emenda já apresentada, antes do impeachment de Dilma pelo deputado decano, Miro Teixeira.

O País recomeça outra etapa da transição.

As reformas, agora, são dúvida, depois da certeza de que seriam aprovadas com margem larga de votos.

Ainda que decida permanecer no cargo, renunciando à renúncia, Temer corre o risco de um segundo ano de mandato em permanente turbulência, enfrentando pedidos de impeachment e pressões de toda a sorte


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