Fim da calmaria

//Fim da calmaria

O recesso parlamentar continua até fevereiro, mas o da Polícia Federal acabou antes e trouxe de volta os fantasmas que assombram a classe política e o governo Temer.

O descanso da Polícia Federal foi mais curto: autorizada pelo juiz Vallisney de Souza em 19 de dezembro do ano passado, a operação cumprida apenas ontem de manhã, avança sobre o PMDB a partir do ex-ministro Geddel Vieira Lima.

A outra má notícia para o governo, de potencial demolidor consideravelmente maior, é a reabertura da delação da empreiteira Camargo Corrêa, que amplia as investigações sobre toda a base do governo e ao próprio presidente da República, nela citado com correligionários.

Geddel Vieira Lima deixou o governo por um delito de natureza ética para protagonizar capítulo penal fora do universo da Lava Jato, relativo ao período em que exerceu o cargo de vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica no governo Dilma Rousseff.

A investigação que o alcança está bastante avançada por ter como origem a varredura da Polícia Federal em um celular de Eduardo Cunha, este, sim, investigado na Lava Jato..

E é essa ligação que queima etapas no trajeto até o grupo do ex-presidente da Câmara – com mais de 200 parlamentares, majoritariamente do PMDB, mas que reunia todo o chamado “Centrão”.

Geddel e Cunha, segundo as denúncias, lucravam pessoalmente e para o partido com esquema de propinas de empresas que obtiam empréstimos da CEF aprovados por influência de Geddel e de mais quatro vice-presidências da instituição.

O universo beneficiado é hoje parcela expressiva da base de sustentação do governo Temer – como era de Dilma e foi do PT, enquanto durou a aliança política. O esquema foi uma das fontes de abastecimento do partido próprio que Cunha liderou enquanto presidente da Câmara.

Não por acaso, a operação foi denominada Cui Bono?,  que se traduz por “a quem beneficia”. No caso, entre outros, parte da base do governo- o novelo ao qual vai levar o fio puxado ontem.

Na outra ponta, a Camargo Corrêa foi levada a revisar a colaboração já prestada, após o Ministério Público constatar omissões nos primeiros depoimentos, a partir de revelações colhidas da Odebrecht.

É nesse ponto que se encontram a Lava Jato e uma operação anterior, abortada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) – a Castelo de Areia -, sob o argumento de se valer de provas obtidas de forma ilícita,  decisão que teve recurso do MP negado pelo juiz Luis Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal.

Os pontos que o MP quer esclarecer com a Camargo Corrêa resgatam conteúdos das investigações da operação Castelo de Areia.

A Castelo de Areia foi a Lava Jato interrompida pelo Judiciário. Ou a Lava Jato foi o recomeço da Castelo de Areia. Como se queira, o que se tem de ambas vai além do PMDB e se esparrama por sete legendas – PPS,PSB,PDT,DEM,PP,PMDB e PSDB.

Se a colaboração da Odebrecht era considerada a “delação do fim do mundo”, uma vez somada à Castelo de Areia pode-se tê-lo abreviado, pelo menos para a base política de Michel Temer, já que o Presidente, se eventualmente alcançado, não poderá ser punido por fatos anteriores ao presente mandato.

Esses dois movimentos – os primeiros de 2017 no âmbito das investigações – mostram que o governo Temer está condenado a se mover em chão movediço, sem trégua do Ministério Público, em permanente instabilidade política.

Ninguém mais estará em paz no universo político, não só em Brasília, mas país afora. A Lava Jato já foi estadualizada e, por óbvio, em breve estará municipalizada, ainda que com outro nome ou com as ramificações que já produziu.

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