A estadualização da Lava Jato

//A estadualização da Lava Jato

A prisão de Sérgio Cabral ameaça o PMDB mais por sinalizar o ingresso da Lava Jato na esfera estadual do que pela duvidosa versão de sua intimidade com o comando nacional da legenda. Cabral não é um peemedebista histórico.

Sua fase de maior visibilidade – e que mais marcou sua gestão – foi a aliança com o PT, costurada diretamente com o ex-presidente Lula que lhe valeu a mais ampla cobertura federal para o governo do Rio.

Foi a época também em que a euforia de uma bonança econômica – que hoje se sabe fundada em terreno movediço -, abriu a porta ao deslumbramento e à corrupção.

O desfecho que sincroniza a quebradeira do Estado com sua prisão não estava fora das previsões de ninguém.

O episódio, no entanto, assinala a extensão das investigações aos Estados e, na sequência, sua municipalização, o que coloca o PMDB no radar policial, pela sua capilaridade eleitoral.

É majoritário nos comandos dos executivos, com maior número de governadores e prefeitos, eleitos por uma máquina cuja engrenagem condensa os piores pecados do sistema político brasileiro.

O desdobramento das investigações confirmará seu caráter apartidário, pois possibilitará uma radiografia das relações entre empreiteiras de todos os portes – e prestadores de serviço em geral – com os gestores da coisa pública.

É uma consequência natural que certamente mostrará o sistema de irrigação da corrupção política no Brasil, seu funcionamento sistêmico e o agravamento da máxima do “rouba , mas faz”, que marcou o ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros.

No Brasil de petrolões e mensalões, nem mais isso: se rouba e não se faz.

Todos vão perder nessa nova fase que, a rigor, é só a confirmação de que a Lava Jato apenas inaugura um ciclo de transformação do exercício da política no País – assim como o do Direito, após a aplicação do mecanismo da colaboração premiada e da revogação, em curso, de privilégios garantidores da impunidade.

O filme em cartaz é o do desmonte de uma velha oligarquia política, extensivo às suas ramificações.

É essa perspectiva que amplia a tensão entre o Judiciário e Legislativo, que reage para reproduzir aqui o revés imposto à operação Mãos Limpas na década de 80, na Itália.

O PMDB, ao contrário do PT, por exemplo, que tem comando centralizado, funciona com autonomia de seus satélites regionais, produzindo caciques com territórios delimitados, o que faz sustentável a tese de que seu presidente nacional, apesar de conhecer o sistema, possa desconhecer falcatruas específicas em sua órbita de Poder.

Ou seja, em um partido com tal dimensão territorial, que configura uma confederação partidária, pode-se conhecer o atacado, mas nem sempre o grande varejo.

Por isso, parece mais mito que realidade a conclusão de que a prisão de Cabral, por si só, possa abalar o presidente Michel Temer.

A continuidade das investigações pelo país afora, sim, tem poder de abalar sua base de sustentação em consequência da fragilização do partido.

A angústia dos agentes políticos e econômicos é quanto à preservação da travessia institucional sob a condução de Temer diante da hipótese de que os efeitos mais agudos desse ciclo estadual das investigações ocorram no curso de seu mandato.

Antes disso, deverão vir a público conteúdos das delações da Odebrecht que guardam amplo vínculo com o sistema federativo da corrupção.

Essas informações, esperadas a qualquer momento, certamente produzirão modificações ministeriais e baixas de peso na base de sustentação do governo, agravando as incertezas que mantêm a economia em compasso de espera.


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