Entre o pudor e o êxito

//Entre o pudor e o êxito
investigações

Desde que assumiu o governo, o presidente Michel Temer vive o dilema da alternativa única – a de trabalhar em aliança plena com um Congresso Nacional contaminado pelas investigações da Lava Jato.

O trunfo de que dispõe – e que faltou à sua antecessora -, é a capacidade e o gosto de fazer política 24 horas, que lhe garantiram, até aqui, uma base sólida em torno de 2/3 da Câmara.

Para tanto, o preço é a convivência com um pragmatismo político que negligencia o pudor em favor do êxito na aprovação de reformas essenciais ao ajuste fiscal que começa a registrar melhoras na economia.

A circunstância é inédita pelo volume de citados nas delações premiadas, especialmente as da Odebrecht que estão por vir à tona na sua inteireza e agravam o desafio de conciliar o interesse público de restaurar a economia com algum padrão ético.

O ideal é que o sigilo natural das delações, enquanto depoimentos sem comprovação, fosse preservado, em nome de uma estabilidade mínima, o que não acontece.

O presidente estabeleceu, então, um padrão para a permanência na estrutura de governo de autoridades alcançadas pelas investigações. Aquelas que forem denunciadas ao Supremo Tribunal Federal serão afastadas até que se concluam as investigações.

As que virarem réus, ou seja, que tiverem a denúncia aceita pelo STF, deixam o governo em definitivo.

Na verdade, dado o curto tempo de seu mandato, quem for afastado por denúncia dificilmente voltará, o que inflexibiliza ainda mais a regra.

Mais que razoável, um critério que preserva o próprio Presidente da República, já que também está mencionado no depoimento de ex-diretor da Odebrecht, Cláudio Melo Filho.

O caso de Temer, inclusive, serve para ilustrar a contradição dos vazamentos: a versão de Melo para a reunião no Palácio do Jaburu, com a Odebrecht, é contraditada pelo presidente da empresa, Marcelo Odebrecht.

Por isso, delações são apenas ponto de partida e precisam ser sustentadas em provas que começam a ser colhidas a partir da homologação dessas delações pelo Supremo, o que já ocorreu, mas apenas há menos de um mês.

Ocorre que os vazamentos produzem a condenação política antes de qualquer efeito judicial e servem à instabilidade diária, o que põe em xeque o padrão estabelecido pelo Presidente para a permanência de ministros nos cargos.

A indignação popular com o descalabro verificado no País, com Estados falidos, serviços públicos idem, e uma economia em lenta recuperação, aumenta a cada enredo vazado e ameaça a travessia até 2018, que se dá no que o ex-presidente Fernando Henrique classificou de “pinguela”.

A divulgação fragmentada de informações ainda em fase de tratamento pelo Ministério Público têm o efeito de minar a autoridade política do governo, o que pode ser fatal se alcançar a figura do Presidente.

Por isso, Temer vem sendo cobrado, mesmo por aliados, para que requalifique seu entorno mais próximo, o que deve ser lido como um apelo para que reduza as concessões a indicações que não estejam à prova de investigações.

Não é tarefa simples, pelo dilema já mencionado. Mas a reforma da Previdência abre essa oportunidade, na medida em que o Congresso precisará do trabalho de convencimento do governo junto à população para aprová-la.

A Previdência mexe naquilo que é mais caro ao parlamentar – o seu mandato – o que a retira do círculo de boa vontade absoluta para o terreno da sobrevivência política.

Temer precisará fazer uma aliança com a população para a aprovação da Previdência, deixando o foco exclusivo no Congresso e investindo todas as fichas na assimilação da reforma mais difícil de todas.

É a chance de impor-se ao pragmatismo e reconstruir seu núcleo duro – o Estado Maior político que foi desfeito pela Lava Jato.

Do contrário, estará isolado.


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