Em “modo resistência”

//Em “modo resistência”

O vazamento do primeiro de 77 depoimentos da colaboração premiada da Odebrecht funciona como uma condenação política da elite dirigente do País, antes que cumpra seu trâmite judicial, e coloca nas cordas o governo provisório de Michel Temer.

O primeiro impacto sugere que ele pode ser mais provisório do que o previsto constitucionalmente. E, nesse rastro, começam a florescer diversas fórmulas preocupadas em uma saída institucional que não leve o país à deriva.

O pré-depoimento do embaixador da Odebrecht em Brasília, Cláudio Melo Filho, fixa o vazamento de conteúdos sob sigilo como método processual, estabelecendo dois tempos – o político e o jurídico, nessa ordem invertida.

Os vazamentos estão quase em tempo real e promovem um striptease da República que completa a tempestade perfeita: economia abaixo do nível do mar, corrupção generalizada e crise política.

O iceberg pode, ainda, estar ao lado – no Tribunal Superior Eleitoral, que julgará as contas de campanha da chapa Dilma/Temer, de 2014, com grande chance de reprová-las.

Elementos que somados desafiam a capacidade do atual status quo em avançar com o ajuste fiscal. A velocidade das condenações políticas queima etapas – e esse parece ser o objetivo, já que a conclusão judicial da fase Odebrecht, acompanharia o tempo de governo Temer.

Afora o risco que empresta à Lava Jato, a estratégia tem como meta a antecipação de eleição presidencial direta, cujo risco está na frustração do eleitorado que constatará que não há plano C – quem vier terá de fazer o ajuste que ora se contesta.

Chega-se, então, à questão fundamental da legitimidade. Um novo presidente, com o poder originário devolvido pelas urnas, se sobreporia a um Congresso moribundo e teria a liderança necessária para tocar o calvário nacional.

Pelo menos, raciocina-se, será mais confortável carregar a cruz com uma estrutura sem as contradições da atual, com obesidade mórbida, que come chocolates e prega dieta. Parece bom, mas não resgatará a economia, por si só.

Calvário é calvário, não importa o santo a conduzi-lo.

De toda forma, a saída da antecipação da eleição presidencial, para que seja pela via constitucional, sem mais rupturas, teria de ter a iniciativa do presidente da República, cujo governo entrou em modo resistência.

A pesquisa Datafolha de domingo, em que 63% dos entrevistados defendem a renúncia do Presidente, excitou a corrente dos que começam a duvidar da capacidade de Temer de resistir ao tsunami da Odebrecht e realimentou o debate da crise.

Provocado nesse debate informal, o deputado Miro Teixeira(Rede-RJ), autor de emenda de eleição direta apresentada à época da admissibilidade do impeachment de Dilma Rousseff, concorda que a eleição direta só deve ser determinada pelo próprio Presidente da República.

Mas, uma vez admitida a hipótese, acha que o eventual eleito poderia assumir ainda em 2017 e governar até 2022, restabelecido o mandato de cinco anos sem reeleição. Isso seria previsto na própria emenda de Temer, que também poderia já dotar o Congresso eleito em 2018 de poderes para revisão constitucional.

Por ora, o governo cuida do próximo passo, talvez o derradeiro, que compreenderá mudanças ministeriais para comprometer de vez o PSDB com a gestão provisória e tentar a fórmula do pacote de medidas que acalmem o mercado e reduzam os efeitos do endividamento e empobrecimento das famílias e empresas.

Um esparadrapo para conter a sangria. Mas até aqui, o depoimento de Melo Filho faz justiça ao epíteto da colaboração da Odebrecht – “a delação do fim do mundo”.


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