Em carne viva


O governo pretende com a nova composição do chamado “Conselhão” iniciar um ciclo de comunicação direta com a população rompendo com o padrão publicitário que tem caracterizado as gestões nos últimos tempos.

Se conseguirá, só o tempo – cada dia mais curto -, dirá. Mas a necessidade, mãe das virtudes, mobiliza boa parcela da nova composição do Conselho, principalmente economistas e empresários, para que o forum não seja meramente decorativo, como até aqui.

Talvez seja esse o diferencial agora. Os empresários estão preocupados com a reversão da expectativa positiva que marcou o primeiro tempo pós-impeachment e acham que o foco exclusivo do governo provisório deve ser a economia.

Constatam, em sua maioria, um risco de dispersão puxado pelo debate das reformas, especialmente pela polêmica que carregam. Por isso, acham que devem ser limitadas àquelas que complementam o ajuste fiscal.

Ou seja, o curto prazo não autoriza o governo a ampliar seus horizontes para debate e mudanças em áreas como Educação, por exemplo, pelo simples fato de que não há tempo para tanto.

Nesse contexto, sugerem que aprovado o teto para gastos públicos, se passe, pela ordem, à Previdência Social e à reforma trabalhista.

Pelo que se pôde constatar na primeira reunião do Conselhão, a fala presidencial vai nessa direção e no empenho pela linguagem mais simples e direta na explicação do ajuste fiscal.

É uma imposição da crise sem precedentes, que disseminou nos empreendedores e governo um misto de urgência e transparência na comunicação.

Nos dias que antecederam a estréia do novo Conselhão, algumas sínteses puderam ser extraídas dos bastidores da reunião , a saber:

Tornou-se fundamental escancarar o estágio falimentar do País para respaldar medidas corretivas de dureza implacável. O País está em carne viva e a cirurgia é dolorosa.

O capital do governo provisório é exclusivamente o conserto da economia, que precisa deixar o plano da perspectiva para a fase concreta.

Precisa andar de mãos dadas com a iniciativa privada, estabelecendo uma rotina de trabalho de manhã, de tarde e de noite, com uma só pauta: economia.

O governo precisa abdicar da tentação de combinar mudança e popularidade, pois são inconciliáveis.

Essa é uma gestão destinada a desagradar, pois vai mexer em vespeiros corporativos e em zonas de conforto da estrutura de Estado, se quiser levar a cabo sua missão.

Um dos conselheiros chegou a dizer que o único caminho para que Temer venha a ser aplaudido é ficar impopular. Ou seja, se fizer o que precisa ser feito, poderá lograr o reconhecimento futuro.

É crucial desconstruir mitos criados em torno das medidas restritivas, como a de que o teto dos gastos públicos reduzirá investimentos em Educação e Saúde, pois a medida impõe um teto e não diminui o que já é aplicado (piso).

A estabilidade do governo Temer reside na indisposição da sociedade em arriscar uma nova mudança em detrimento da economia.

A crise, portanto, é algoz e avalista ao mesmo tempo.


Compartilhar:

Não há comentários ainda.

Deixe seu comentário

Seu email não será divulgado.