De algoz a alvo

//De algoz a alvo
Rodrigo Janot

Sempre se soube que havia duas Lava Jatos – a de Curitiba e a de Brasília. Esta última, comprometida em fazer o contraponto partidário ao avanço da primeira nas investigações concentradas no Petrolão, cuja construção se deu nos anos de gestão do PT.

Enquanto o juiz Sérgio Moro caracterizou sua ação pela prevenção permanente contra os excessos dos procuradores, Rodrigo Janot, como admite agora, atuava para satisfazer seu público interno.

Em comum, a meta de hegemonia abraçada pela classe dos procuradores. A diferença, em Curitiba, foi o juiz. Em Brasília, o Procurador, que assume agora não agir pela coragem que lhe atribuíam seus admiradores, mas “pelo medo de errar e decepcionar o Ministério Público”.

Janot colheu aplausos e semeou tempestade.

O retrovisor mostra que a meta da hegemonia no âmbito da Justiça, o fez cego a ponto de tratar críticos como meliantes, emparedar o Supremo Tribunal Federal e investir contra um presidente da República com base naquilo que afirmou julgar suficiente: “uma boa narrativa”.

É de se perguntar agora como estaria o País se a Câmara tivesse concedido a licença para processar Temer e, assim, afastá-lo do cargo por seis meses. E o que aconteceria se o procurador Geral ainda tivesse mais tempo de mandato, para além do próximo dia 17.

Teríamos um presidente afastado e um Procurador impelido a renunciar por ter celebrado um acordo dos deuses com empresários desmascarados por gravação feita por eles próprios, o que eleva o Brasil à condição de um país que supera qualquer ficção.

A Janot estão reservados dias ruins. O acordo foi feito com base em uma farsa que envolveu em crime dois procuradores próximos a ele – Angelo Goulart e Marcelo Miller. Com o primeiro, Janot foi implacável; com o segundo, defendeu sua ida para o escritório de advocacia que servia aos delatores, como algo legítimo,

Já há advogados atuantes na Lava Jato admitindo inserir Janot no contexto da teoria do domínio do fato – a mesma aplicada pelo STF a José Dirceu e pelo próprio Janot a investigados. Vale dizer: Janot pode não ter o benefício da dúvida quando afirma desconhecer os maus passos de Miller, seu braço direito na PGR.

O Procurador já declarou que não se aposentará exclusivamente para não perder o foro especial, aquele que chama de privilegiado e contra o qual tantas vezes se manifestou. Precisará dele, afinal – agora, mais do que nunca. Seu desafeto no STF, Gilmar Mendes, subiu o tom após as revelações de ontem: já o trata como “delinquente”.

As gravações apagadas por Joesley e recuperadas pela PF, têm citações ao STF, nenhuma com indício de crime, e à Procuradoria Geral com afirmação clara de suborno ao braço direito de Janot. Mas o Procurador nivelou as duas, ao dizer que o conteúdo das gravações é gravíssimo em relação às duas instituições.

Não é, e o STF já acusou isso. A reação do Supremo não será branda – nem em relação a Janot e nem em relação aos empresários beneficiados pelo melhor acordo do mundo. O procurador termina seu mandato com o pesadelo de processos em lugar do sonho hegemônico. E os irmãos Batista expulsos do Paraíso.


Compartilhar:

4 Comentários

  • Excelente, Bosco!

    Sérgio Vaz 05.09.2017
    • Vindo de vc é uma honra, Sérgio! Obrigado

      João Bosco Rabello - Política No Ar 06.09.2017
  • Janot deixou suas paixões políticas cegarem suas “verdades” jurídicas

    Frederico 06.09.2017
  • Lula tivesse mais conhecimentos saberia o quanto puliças, delegados e promotores, usam abusivamente de suas autoridades contra os cidadãos e não os teriam dado tantas prerrogativas, transformando o MP e PF em quarto e quinto poderes da República.

    Vilela. 06.09.2017

Deixe seu comentário

Seu email não será divulgado.