Arritmia política

//Arritmia política

A coletiva de Michel Temer, em que os presidentes do Senado e da Câmara participaram como figurantes, é mais uma demonstração de que o governo vê a pauta da sociedade pelo retrovisor, trazido à realidade aos solavancos, como em um parto a fórceps.

Menor dos males, fez o que era certo fazer, embora aos espectadores imagem e som cheguem aos seus destinos com delay. É aquela espécie de déja vu eletrônico, quando a mesma transmissão aparece em telas distintas em tempos diferentes.

Postos lado a lado, dois celulares podem receber a mesma transmissão em tempos diferentes, de forma que, em um, já se sabe o que o outro ainda trará. E fica-se, diante do fato, com aquela sensação de já tê-lo vivenciado.

Assim parece o governo, vendo o filme depois do público. Não há surpresa, de forma que a pauta de domingo era conhecida na véspera. Uma viagem pelo twitter já permitia antevê-la. Era óbvia.

As presenças anunciadas de Renan Calheiros e Rodrigo Maia fariam corar uma vidente que não se mostrasse capaz de prever o dia seguinte: à dupla só poderia caber o anúncio de recuo da pornográfica anistia – não ao caixa dois, que essa nunca existiu, mas para o cardápio de crimes, por assim dizer, conexos, levantados pela Lava Jato.

Foi preciso, no entanto, o desgaste do episódio que envolveu as demissões de dois ministros – um denunciado por outro -, para que o governo percebesse a dimensão do estrago produzido pela solidariedade às velhas práticas políticas.

A falta de limite na preservação de uma maioria parlamentar em torno das medidas do ajuste fiscal, leva o governo a trocar perigosamente a pauta da sobrevivência da economia pela da base que o sustenta.

Geddel Vieira Lima estava irritado e isso configurava risco a essa unidade.

Salve-se, pois, o interesse de Geddel, para evitar “dificuldades operacionais” ao governo.

Como se vê, a escolha piorou muito as condições de tempo e navegação.

A chamada anistia ao caixa-dois é daqueles movimentos congressuais suprapartidários que ninguém quer assumir, por indefensável. Mas foi precificado no contrato de eleição de Rodrigo Maia para o mandato-tampão que agora tenta prorrogar.

Não por outra razão, obteve os apoios decisivos do PT e do Centrão, sem os quais dificilmente chegaria ao cargo. Também não é acaso a ameaça imediata do Centrão de criar problemas para o governo, após o recuo de domingo.

O governo Temer assumiu com prazo de validade, condicionado a resultados concretos no ajuste fiscal. Desde então, seu foco deveria ser a economia – de manhã, de tarde e de noite.

E sua composição não deveria prever integrantes com pauta própria.

Resta da coletiva a parte que realmente a inspirou, ou seja, a defesa do presidente da República no episódio que resultou nas demissões de dois ministros – o da Cultura e o da Secretaria de Governo.

Nesse caso, se o conteúdo da gravação do ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, confirmar a versão de Temer da conversa, a crise por ele gerada, pode ficar do tamanho que está se a economia der sinais de recuperação.

O que significará apenas uma redução de danos. Afinal, o que se extrai da entrevista do ex-ministro da Cultura à jornalista da TV Globo, Renata Lo Prete, é que as gravações feitas de suas conversas com Geddel e com o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, ainda podem dar panos prá mangas.

Calero disse que a gravação de Temer é protocolar, burocrática, portanto não comprometedora. Já as de Geddel e Padilha, não pode comentar para não prejudicar as investigações em curso sobre o episódio.

O governo precisa surpreender positivamente sem o combustível do escândalo. Não há sobrevivência fora da pauta que conjuga recuperação econômica e assepsia política.


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