Aos trancos e barrancos

//Aos trancos e barrancos

Diante do ritmo das colaborações premiadas, o governo Temer decidiu tocar a vida, mesmo apoiado em uma base de sustentação cuja reputação não resiste às revelações vazadas diariamente, ainda que produzam efeitos políticos e não jurídicos.

Estes devem demorar muito tempo ainda, tal o volume de informações a ser processado, investigado e homologado pelo Supremo Tribunal Federal, o que dá chance ao governo de tentar aprovar as medidas de estabilização da economia.

O governo tenta sair da letargia que o fez perder o capital da expectativa criada com sua posse. Continua mal arrumado, com quadros precários, ministérios com perfis insuficientes – mas, menos mal, as denúncias fizeram com que se mexesse.

Primeiro, a carta do Presidente ao Procurador Geral, Rodrigo Janot, registrando a ilegalidade do vazamento dos depoimentos e pedindo a aceleração das investigações e o fim das revelações fragmentadas.

Em segundo, o anúncio de medidas de oxigenação destinadas a reduzir o endividamento de empresas e famílias, mesmo que signifiquem muito pouco diante da montanha a ser vencida.

O governo aposta na dificuldade de implantação de eleição – direta ou indireta –, que só prospera na paralisia executiva e de duvidoso resultado em curto prazo, pois estenderia o tempo de combate à recessão.

As corporações perderam o primeiro round – a emenda que limita os gastos públicos foi finalmente aprovada e ainda que a capilaridade da esquerda além fronteiras reúna protestos externos, Inês é morta.

O governo ganhou a batalha pela emenda do Teto, mas perdeu a da comunicação, na qual prevaleceu junto à opinião pública a linha que a vende como um atentado aos direitos humanos, pelo seu suposto abalo à Saúde, Educação e programas sociais.

Assim será, se quiserem, mas a emenda apenas estabelece teto para gastos, mantém o piso para Saúde e Educação e caberá aos gestores dos orçamentos em todos os níveis públicos priorizar gastos – e, principalmente, gastar bem.

A oposição à emenda, mobilizada nos níveis mais aguerridos, sugere que as corporações sindicais, do Estado, e toda a rede paralela de ONGs e afins que a constitui, não dimensionaram ainda o tamanho da crise que aproxima o País da falência.

Não é coincidência que o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada – Ipea – no mesmo dia da aprovação da emenda, trace um diagnóstico dramático do Brasil e mencione da forma mais clara possível que não se pode mais gastar no moldes até aqui verificados.

Diz o Ipea: “… gastar mais teria mais malefícios do que benefícios e poderia até causar a falência do país. No contexto atual, qualquer tentativa de expandir gastos públicos teria efeitos contrários e ainda elevaria imediatamente o custo de capital da economia, podendo até tornar inviável o refinanciamento da dívida pública”.

E expandir gastos públicos é o que se tem feito historicamente no Brasil, que transformou a rubrica “restos a pagar” – dívidas sem lastro que passam de um ano para o outro – um orçamento paralelo, maior a cada ano.

A qualidade do gasto é item fora do manual do gestor público brasileiro. Agora mesmo, se noticia que 18 milhões de reais foram “investidos” no Museu do Trabalhador, no Grande ABC, berço do PT, em obra paralisada e já reajustada para 21 milhões.

São quatro pavimentos em um prédio faraônico, obra absolutamente desnecessária em um país que padece de falta de saneamento básico na maior parte de seus municípios. Não é o único, mas apenas um exemplo entre centenas de outros que já mereciam um levantamento sério.

Cabe ao governo, apesar da vitória, fazer chegar a todos os segmentos da população a realidade econômica e o sentido da emenda.

Mostrar como se gasta mal e irresponsavelmente no Brasil , e como esse descaminho orçamentário se ampliou na última década e meia.

A reforma da Previdência será muito mais cruenta que a emenda do Teto. E, ao que tudo indica, é batalha de comunicação que começa em desvantagem, pois se orienta pelo açodamento em dar resposta à crise em detrimento do bom e indispensável debate.

As idas e vindas da emenda indicam a hesitação própria da pressa das produções.

 

Idas e Vindas:


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1 Comentário

  • Grato, artigo focado, honesto e direto ao ponto.

    Mauai 14.12.2016

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