A carne é forte

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Ao contrário do que sugere o título escolhido pela Polícia Federal, a carne brasileira é forte. A mão humana é que se presta a desvios.

Por mais grave que seja – e o é -, o novo escândalo nacional envolvendo a circulação de carne abaixo dos padrões de consumo, impacta menos pela extensão dos danos e mais pelo enredo macabro do suborno de fiscais.

Por mais desumana e sórdida, a trama não reflete o padrão de segurança brasileiro para consumo da carne.

Não se pode, porém, minimizar um fato que conspira contra a saúde do consumidor brasileiro de todas as idades e condições, dos mais desprotegidos aos mais informados, todos vítimas de crime sem qualquer escrúpulo.

Além disso, investiram contra o mais sólido segmento produtivo do País, pilar de sustentação da economia, que só não esteve pior graças aos seus resultados.

Os envolvidos devem ser punidos exemplarmente em grau acima do aplicado a criminosos comuns, pois, se considerada a condição do Brasil de segundo maior exportador do mundo no setor e sua importância para a economia nacional, trata-se de crime de lesa-pátria.

A ação da Polícia Federal, que seria ainda melhor se divulgada na proporção dos danos reais, mostra no entanto que não houve falha sanitária – o que comprometeria o sistema -, mas desvio de conduta de gente que perdeu qualquer limite na prática da corrupção.

Acordos comerciais foram fechados nos últimos dois anos com os principais consumidores mundiais, com reflexo significativo na balança comercial brasileira. O roubo dos criminosos agora flagrados não pode ser medido, portanto, pela soma das propinas obtidas – mas pelos prejuízos ao País.

Segundo se resume das primeiras reações do Ministério da Agricultura, a extensão do caso, após dois anos de investigação em quase todas as plantas frigoríficas é o de 21 unidades contaminadas pela ação criminosa em um universo de 4.837 (menos de 0,5% do total) e 33 de 11 mil funcionários.

Pode haver mais com a Polícia Federal, ainda em fase de depuração, mas não se acredita suficiente a ponto de condenar a estrutura de fiscalização do País que está submetida ao rigor internacional – o que não é pouco.

Principal exportador, o Brasil teve que vencer barreiras protecionistas que historicamente são exercidas exatamente com base nas falhas sanitárias. Por mais de uma década, o País suportou bloqueios de mercados externos rompidos só recentemente – mais exatamente em 2015 e 2016.

O empenho e correção do Brasil, essencial à reabertura desses mercados, vale ao país agora o crédito que atenua a reação dos países consumidores de sua produção animal.

Estes, em sua maioria, suspenderam apenas as produções das plantas relacionadas nas investigações enquanto aguardam as providências do governo brasileiro.

Resta ao governo e aos empresários do setor agir com objetividade e rapidez, sem ver a quem, para preservar o consumidor interno e o nosso comércio exportador. É uma oportunidade para reforçar e aprimorar o sistema.

Para se ter uma ideia, o crescimento da classe média no mundo, vai pressionar a demanda por alimentos nos próximos anos, o que pode levar o Brasil à condição de país decisivo para a segurança alimentar.

Em 2020, espera-se que a população mundial ultrapasse 7,5 bilhões, enquanto a expectativa é que a disponibilidade de terra cultivável decresça continuamente. Por isso, a palavra-chave é produtividade.

O episódio atinge também a corporação dos fiscais do ministério da Agricultura, sempre fechada a medidas de aprimoramento que ameacem de alguma forma a autonomia desproporcional que a caracteriza.

Não vai muito longe no tempo a ameaça de paralisação dos fiscais, sob coordenação do sindicato da categoria, quando se pretendeu ampliar e reforçar a fiscalização com a contratação de mais profissionais, especialmente com a perspectiva de ações nas fronteiras em favor da erradicação da febre aftosa.

Uma greve de fiscais paralisa portos e aeroportos, o que significa dizer que tem potencial para parar o País. É um poder usado sem cerimônia para chantagear o Estado quando diretrizes de governo os contrariam. Nesse contexto, é de se perguntar quem fiscaliza os fiscais.

A categoria não está presente apenas no âmbito da fiscalização, mas ocupa postos estratégicos em toda a estrutura ministerial país adentro. De chefias de gabinete aos postos mais modestos, de forma que têm olhos e ouvidos entre quatro paredes de quaisquer ambientes.

Nessa medida, têm responsabilidade também nos erros, pois quem exige mais também deve mais.


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